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Archive for the ‘Literatura Colateral’ Category

O famoso trecho de Hamlet.

Ato III

Cena 1Comentário

(…)

POLÔNIO

Você fica aqui, Ofélia. (Ao Rei.) E se apraz

A Vossa Graça, nos escondemos ali.

(Pra Ofélia.) Você lê este breviário

Pra que o exercício espiritual

Dê algum colorido à tua solidão.

Vamos ser acusados de coisa já tão provada;

Com um rosto devoto e alguns gestos beatos,

Açucaramos até o demônio.

REI

(À parte.) Oh, como isso é verdade!

que ardente chicotada em minha consciência é esse discurso.

A face da rameira, embelezada por cosméticos,

Não é mais feia para a tinta que a ajuda

Do que meu feito pra minha palavra mais ornamentada.

Oh, fardo esmagador!

POLÔNIO

Ele vem vindo. Vamos nos retirar, senhor.

(Saem Polónio e o Rei.)

HAMLET

Ser ou não ser eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias –

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;

Só isso. E com o sono – dizem – extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis uma consumação

Ardentemente desejável. Morrer – dormir –

Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Os sonhos que hão de vir no sono da morte

Quando tivermos escapado ao tumulto vital

Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão

Que dá à desventura uma vida tão longa.

Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,

A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,

As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,

A prepotência do mando, e o achincalho

Que o mérito paciente recebe dos inúteis,

Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso

Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,

Gemendo e suando numa vida servil,

Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –

O país não descoberto, de cujos confins

Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,

Nos faz preferir e suportar os males que já temos,

A fugirmos pra outros que desconhecemos?

E assim a reflexão faz todos nós covardes.

E assim o matiz natural da decisão

Se transforma no doentio pálido do pensamento.

E empreitadas de vigor e coragem,

Refletidas demais, saem de seu caminho

Perdem o nome de ação. (Vê Ofélia rezando.)

Mas, devagar, agora!

A bela Ofélia!

(Para Ofélia.) Ninfa, em tuas orações

Sejam lembrados todos os meus pecados.

OFÉLIA

Meu bom senhor, como tem passado todos esses dias?

HAMLET

Lhe agradeço humildemente. Bem, bem, bem.

OFÉLIA

Meu senhor, tenho comigo umas lembranças suas

Que desejava muito lhe restituir.

Rogo que as aceite agora.

HAMLET

Não, eu não;

Nunca lhe dei coisa alguma.

OFÉLIA

Respeitável senhor, sabe muito bem que deu;

E acompanhadas por palavras de hálito tão doce

Que as tornaram muito mais preciosas. Perdido o perfume,

Aceite-as de volta; pois, pra almas nobres,

Os presentes ricos ficam pobres

Quando o doador se faz cruel.

Eis aqui, meu senhor. (Dá os presentes a ele.)

HAMLET

Ah, ah! Você é honesta?

OFÉLIA

Meu senhor?!

HAMLET

Você é bonita?

OFÉLIA

O que quer dizer Vossa Senhoria?

HAMLET

Que se você é honesta e bonita, sua honestidade não deveria admitir qualquer intimidade com a beleza.

OFÉLIA

Senhor, com quem a beleza poderia ter melhor comércio do que com a virtude?

HAMLET

O poder da beleza transforma a honestidade em meretriz mais depressa do que a força da honestidade faz a beleza se assemelhar a ela. Antigamente isso

era um paradoxo, mas no tempo atual se fez verdade. Eu te amei, um dia.

OFÉLIA

Realmente, senhor, cheguei a acreditar.

HAMLET

Pois não devia. A virtude não pode ser enxertada em tronco velho sem pegar seu cheiro. Eu não te amei.

OFÉLIA

Tanto maior meu engano.

HAMLET

Vai prum convento. Ou preferes ser geratriz de pecadores? Eu também sou razoavelmente virtuoso. Ainda assim, posso acusar a mim mesmo de tais coisas que talvez fosse melhor m

era um paradoxo, mas no tempo atual se fez verdade. Eu te amei, um dia.

OFÉLIA

Realmente, senhor, cheguei a acreditar.

HAMLET

Pois não devia. A virtude não pode ser enxertada em tronco velho sem pegar seu cheiro. Eu não te amei.

OFÉLIA

Tanto maior meu engano.

HAMLET

Vai prum convento. Ou preferes ser geratriz de pecadores? Eu também sou razoavelmente virtuoso. Ainda assim, posso acusar a mim mesmo de tais coisas que talvez fosse melhor minha mãe não me ter dado à luz. Sou arrogante, vingativo, ambicioso; com

mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los. Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra? Somos todos rematados canalhas, todos! Não acredite em nenhum de nós. Vai, segue pro convento. Onde está teu pai?

OFÉLIA

Em casa, meu senhor.

HAMLET

Então que todas as portas se fechem sobre ele, pra que fique sendo idiota só em casa. Adeus.

OFÉLIA

(À parte.) Oh, céu clemente, ajudai-o!

HAMLET

Se você se casar,

minha mãe não me ter dado à luz. Sou arrogante, vingativo, ambicioso; com

mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los. Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra? Somos todos rematados canalhas, todos! Não acredite em nenhum de nós. Vai, segue pro convento. Onde está teu pai?

OFÉLIA

Em casa, meu senhor.

HAMLET

Então que todas as portas se fechem sobre ele, pra que fique sendo idiota só em casa. Adeus.

OFÉLIA

(À parte.) Oh, céu clemente, ajudai-o!

HAMLET

Se você se casar,

leva esta praga como dote:

Embora casta como o gelo, e pura como a neve, não escaparás

À calúnia. Vai pro teu convento, vai. Ou,

Se precisa mesmo casar, casa com um imbecil. Os espertos sabem muito bem em que monstros vocês os transformam. Vai prum conventilho, um bordel: vai – vai depressa! Adeus.

OFÉLIA

Ó, poderes celestiais, curai-o!

HAMLET

Já ouvi falar também, e muito, de como você se pinta. Deus te deu uma cara e você faz outra. E você ondula, você meneia, você cicia, põe apelidos nas criaturas de Deus, e procura fazer passar por inocência a sua volúpia. Vai embora – chega –

foi isso que me enlouqueceu.

Afirmo que não haverá mais casamentos. Os que já estão casados continuarão todos vivos – exceto um. Os outros ficam como estão. Prum bordel – vai! (Sai.)

OFÉLIA

Ó, ver tão nobre espírito assim tão transtornado!

O olho, a língua, a espada do cortesão, soldado, sábio,

Rosa e esperança deste belo reino,

Espelho do gosto e modelo dos costumes,

Admirado pelos admiráveis – caído assim, assim destruído!

E eu, a mais aflita e infeliz das mulheres,

Que suguei o mel musical de suas promessas,

Vejo agora essa razão nobre e soberana,

Descompassada e estridula como um sino rachado e rouco.

E coisa consagrada:

A loucura dos grandes deve ser vigiada.

(Saem.)

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Alguem ainda não tinha lido esse clássico ? Se não entenderam algum trecho só perguntar que eu ajudo. Abs.

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Nem fala…

dezembro 7, 2010 1 comentário

nem fala…..

é impossível não pensar,
quando tudo que faço é lembrar,
dos momentos que contigo estive;

é difícil não querer estar,
contigo em qualquer lugar,
quando,
sorrindo,
nossos olhares se encontram;

é irreal esquecer teu cheiro,
quando nele ponho o peso
de todos meus desejos.

Bruno Dorneles

Eu não sou bom

novembro 18, 2010 5 comentários

Por mais que em uma noite, em poucos minutos, tudo possa mudar… Aqui está meu texto.

Eu fugi da minha humanidade. Não sou generoso nem piedoso. Sou o contrário: me cale a boca e para você ela estará eternamente fechada. Eu não acredito mais em santidade ou em fé. Para mim elas são apenas uma tentativa inútil de se aproximar de qualquer coisa que chamamos de divino. Se tenho fé, se chama confiança, e é em algo muito mais terreno do que qualquer coisa que se afirma viver acima de nós. Não acredito em civilidade. Homens e mulheres sempre foram e sempre serão animais, independente do que usem para cobrir seus corpos e suas vergonhas. Não enxergo mais o melhor das pessoas, sua mania insistente de me machucar me calcou um buraco nos olhos. Não sou um bom cidadão, minha cooperação para uma sociedade sadia beira a sociopatia. Minhas meias são velhas e tem buracos. Meu coração bombeia pouco sangue e muito orgulho, sou um poço de vícios e virtudes duvidosas. Minha história é curta, tenho poucos anos e acho que sei de tudo. Sou insistente, bato com a cabeça até sangrar. Minhas mãos tremem de ódio e meus olhos pegam fogo, não mecha com a pessoa errada na minha frente. Cultivo meus defeitos como se fossem qualidades, isso me afasta de falsos profetas e lhe deixa a dica: erre, e passe a achar isso lindo! Não tenho certeza se sentiria remorso por matar alguém, voluntaria ou involuntariamente. Tenho cabelos pretos e olhos felinos como uma prostituta barata, com a diferença de que me ofereço de graça. Sou versátil, não me importo de dar se em troca receber. As vezes só Amy me entende, e “neste tom triste, minhas lágrimas secam sozinhas”. Atribuo donos falsos a frases criadas por mim, assim como roubo ideias alheias. Amor? Sobre amor vocês me perguntam? Não o conheço mesmo pensando que o conhecia, isso não quer dizer que não exista. Para terminar, da mesma forma duvidosa que comecei, admito que nem tudo que falo é verdade, e que verdades de fato não existem. São ilusões de seda prontas a serem rasgadas. Todas elas.

Bruno Dorneles

A Bela e a Fera

novembro 1, 2010 1 comentário

A Bela e a Fera

Que Fera é esta?
Que no lugar dos olhos carrega o coração?
Que Bela é essa?
Que de humilde carrega apenas a falta da mesma?

Palpáveis são as almas,
Reflexos das vontades;
Racionais por tradição.

Cansei de viver o irreal,
Ser um mortal nas mãos da estúpida fantasia;
Viveremos o que sempre fomos,
O que negamos aos nossos pais,
Aos nossos corações.

Viveremos por que pensamos,
Por que pensamos e existimos;
Viveremos por que queremos,
Por que esperamos dias melhores;

Cansei de ser Bela,
De procurar o melhor do monstro;
Já achei o que queria,
Fica no meio do homem,
O coração da carne;
Além dos lindos olhos,
Além da barba,
Além do mundo.

Não é amor,
É de verdade.

Bruno Dorneles

O Brasil explicado por Galinhas (por L.F.V.)

setembro 2, 2010 2 comentários

Nada melhor do que palavras de um mestre, certo?

O Brasil explicado em galinhas…
por Luis Fernando Veríssimo

Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e o levaram
para a delegacia.

D – Delegado
L – Ladrão

D – Que vida mansa, hein, vagabundo? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para a cadeia!
L – Não era para mim não. Era para vender.
D – Pior, venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!
L – Mas eu vendia mais caro.
D – Mais caro?
L – Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.
D – Mas eram as mesmas galinhas, safado.
L – Os ovos das minhas eu pintava.
D – Que grande pilantra… (mas já havia um certo respeito no tom do delegado…) Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega…
L – Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiros a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio.
D – E o que você faz com o lucro do seu negócio?
L – Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:
D – Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?
L – Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
D – E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
L – Às vezes. Sabe como é.
D – Não sei não, excelência. Me explique.
L – É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto fal ta de uma coisa. O risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto
realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora fui preso, finalmente vou para a cadeia. É uma experiência nova.
D – O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
L – Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
D – Sim. Mas primário, e com esses antecedentes…

Preconceito

Infelizmente não achei a pessoa que escreveu esse experimento, nem ao menos conheço sua veracidade, se ele realmente existiu ou não. Independente de sua existência, creio que se fosse levado a sério, resultado diferente não seria obtido. Adoraria dar os créditos a quem merece, porém minha fonte o omitiu, então é isso, espero que vocês aproveitem tanto quanto eu aproveitei:

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula. No centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jacto de água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancada.
Passado algum tempo, mais nenhum macaco subia a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, sendo rapidamente retirado pelos outros, que o encheram de pancada. Depois de algumas porradas, o novo membro do grupo já não subia mais a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo primeiro substituto participado, com entusiasmo, na surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o facto. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído.

Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam a bater naquele que tentasse chegar às bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles por que batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui…

É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.
Albert Einstein

Panorama Crítico – Artigo: Comunicações indiretas entre León Ferrari e Mira Schendel, sob um alfabeto enfurecido

Texto que apresentei como trabalho na disciplina “fundamentos da arte” da Profª Bianca Knaak, que me incentivou e enquadrou o texto para que ele fosse publicado na 6ª edição da revista “Panorama Crítico”, uma revista eletrônica de crítica de arte.

Muito obrigado Profª Bianca.

Link para o artigo. Basta clicar no símbolo do PDF e abrir como.