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Archive for the ‘Crônicas da vida’ Category

Sobre as minhas franquezas

agosto 14, 2011 3 comentários

A vontade como força é variável em tamanho e intensidade, como qualquer outra possível existência. Como submete-se aos caprichos humanos, a pobre vê-se vezes tão pequena que some atrás de lágrimas, vezes grande que se impõe acima dos punhos.

Até o ponto que sei meu corpo é feito de carne e ossos, e até onde creio saber tudo o que se passa pela minha cabeça vêm de uma consciência racional. Somos assim, os humanos, não somos? Esses saquinhos de sangue e fibra com algo que alguns chamam de alma, outros de mente…  Como algo independente de corpo e mente, e até onde posso saber, livre, não posso culpar a ninguém que não seja a mim mesmo quando vejo minha vontade submeter-se aos momentos amargos e desaventurados nos campos que me foram negados conhecer. Talvez maior tenha sido a falta do aconchego de um pai, ou da sobra de um que o tentava substituir. Mas o passado não é mesmo nada que possa modificar o futuro… Talvez sejam os vetores, sim, minha tristeza e meu engano. Talvez eu não precise ter, mas me vejo em prantos precisando ao menos entender o que fiz nos meus tempos inocentes para merecer a saudade de algo que hoje me parece ou fazer falta, ou excesso…

Mais uma vez me vejo desejando um gênio, ou uma garrafa… O que me desse, de forma mais imediata, possíveis segundos de não ser mais quem sou. Humano, fraco, projeto de filho…

Existe Deus?

agosto 6, 2011 27 comentários

Recentemente tive a oportunidade de viver um sonho infantil de andar de “montanha russa” em um parque de São Paulo que ficou conhecido há algum tempo por algumas tragédias resultantes de falta de reparos na estrutura dos brinquedos.

No entanto, mesmo com toda essa má fama, o parque estava tão lotado que a fila para chegar ao “meu brinquedo querido” demoraria mais de uma hora, segundo indicava uma placa.

Com isso, tive tempo para devanear, como de costume quando me vejo em: viagem, ônibus, lavando louça, escutando música… e o tema? Existe Deus?

Fique pensando sobre meus temores e dúvidas que preenchem minha cabeça desde que eu tinha meus 5 anos e chorava quando não conseguia acreditar no que minha mãe dizia: “Você vai pro céu, meu filho, existe algo além”. Pois é, eu já duvidava disso.

Pensei, pensei e tentava não pensar, pois nunca chego a uma explicação que acalente minha desconfiança. Deus seria uma força? Uma energia presente desde os átomos? Seria uma invenção para fazer as crianças – e os adultos – não entrarem em desespero? Um enigma contra o caos na sociedade? O resultado de uma marca constituinte dos primórdios da civilização?

Enfim eu me vejo, depois da fila enorme, subindo na montanha e ainda pensando sobre isso. Quando finalmente chega a hora em que o brinquedo está a um instante de descer a toda velocidade, as seguintes palavras saem da minha boca: “Ai meu Deus do céu!!!!!!!”

Estou com preguiça, só copiei e colei um trabalho para a cadeira de filosofia…

Bruno Dorneles da Silva

Introdução a Filosofia A – 2011/01

Profº Eros de Carvalho

 

 

O homem amoral, o psicopata, o desinteresse e a moralidade

                Para que não haja nenhum desentendimento entre os conceitos, se faz necessário analisarmos o que Thomas Hobbes entende e como ele diferencia o homem amoral do homem desinteressado pela lógica moralista.

Para o filósofo, o homem amoral seria aquele cuja existência não passa perto do círculo moral, cuja pessoa tem interesse em cultivar apenas seus próprios interesses, desconsiderando a existência do interesse alheio, e cujos fins certamente justifiquem os meios para a obtenção do que se quer. O homem amoral deve viver basicamente sem fazer juízos morais. Assim como não deve se sentir culpado, não deve culpar (ou sentir mágoa de) ninguém por nada. Além disso, ainda, o homem amoral não se considera melhor do que ninguém, já que entende que ser melhor o faria chegar a conclusão de que certas disposições e atitudes são mais valiosas ou saudáveis à sociedade. Já o homem desinteressado moralmente está mais próximo daquele que responde “Dê-me uma razão para fazer alguma coisa; nada tem sentido”, cuja existência não representa nenhum perigo para as bases racionais da moral e de quem apenas podemos esperar falas e atitudes que demonstram desesperança e a necessidade de ajuda.

Como personagem ausente do círculo moral, o verdadeiro problema imposto pela simples existência do homem amoral seria a natureza da escolha. Como se não houvessem, naturalmente, um sistema moral que independe da sociedade e da criação do ser humano. Se comprovadamente existisse, o homem amoral seria capaz de mostrar aos outros que a moral é uma escolha, e não uma regra sem exceções.  Como um parasita, o homem amoral porta máscaras que o auxiliam a viver em um mundo moral, de onde ele tira seu sustento e seus prazeres. Ele vive e reconhece o sistema moral, entende que a universalização de seu hábito tornaria a sociedade insuportável e de sobrevivência mais difícil. Como desenvolvimento máximo de sua idéia, Hobbes alega que o homem amoral seria aquele que não se importa com o bem-estar dos outros e, se isso for levado até suas últimas conseqüências, estaríamos muito próximos da imagem do serial killer. E diante deste personagem, a tentativa de trazê-lo para o círculo moral seria descabida. Alegando então a existência de outro personagem cujas ações poderiam ser consideradas amoralistas e cuja imagem estaria minimamente distante do serial killer, o filósofo chega ao gângster. Na sua imagem, Hobbes projeta o que ele acredita ser a base da moralidade, quando surgida “do nada”:

 

“Pois ele tem a noção de fazer algo por alguém, e de fazê-lo movido pelo fato de essa pessoa precisar de ajuda. Na verdade, ele trabalha com essa noção somente quando esta com vontade; mas ela não é em si mesma a noção de estar com vontade. Mesmo que ele ajude essas pessoas somente porque quer, ou porque gosta delas, e por nenhuma outra razão (não que essas excelentes razões precisem ser corrigidas), o que ele quer é ajudá-las em suas necessidades; o pensamento que lhe vem quando age assim é ‘eles precisam de ajuda’ e não ‘eu gosto deles e eles precisam de ajuda’. Essa é uma questão central: tal homem é capaz de pensas nos interesses alheios, e só não consegue ser um sujeito (parcialmente) moral porque apenas esporádica e caprichosamente se dispõe a sê-lo”

Thomas Hobbes. O homem amoral, p. 15-16.

                Mesmo entendendo uma suposta decisão quase moral do gângster, Hobbes afirma que despertar a compaixão e estendê-la para os desconhecidos não faria da imagem amoral um exemplo de moralidade, e sim apenas um domínio precário. Para o filósofo apenas a compaixão e o entendimento das necessidades do próximo não seriam suficientes para fazer que alguém adentre o campo da moralidade, mas que este modelo se presta a sugerir que, tendo compaixão, não é necessário atribuir ao personagem nenhum tipo fundamentalmente novo de pensamento ou experiência.

Chegando ao escopo de uma possível solução ao homem amoral, Hobbes argumenta que as concepções morais mais fundamentais fazem parte de uma esfera humana tão densa e enraizada que está fora do alcance humano manipulá-las ou expurgá-las em quais quer circunstâncias. Para Hobbes, a raiz da questão moral pode ser traduzida como uma teoria psicológica. Fazendo parte da natureza humana, a moralidade estaria intrinsecamente entrelaçada no futuro e nas decisões dos homens, como uma forma de controle previsto em função daqueles capazes de entendê-las.

 

Bibliografia utilizada:

 

O homem amoral – Hobbes, Thomas

O básico da filosofia – Warburton, Nigel

Tirem os simbolos religiosos das instituições laícas

O Ministério Público Federal de São Paulo ajuizou ação pedindo a retirada dos símbolos religiosas das repartições públicas. Pois bem, veja o que disse o Frade Demetrius dos Santos Silva.“Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São Paulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas… Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A Cruz deve ser retirada!Aliás, nunca gostei de ver a Cruz em Tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são barganhadas, vendidas e compradas.Não quero mais ver a Cruz nas Câmaras legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte. Não quero ver, também, a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados. Não quero ver, muito menos, a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas pobres morrem sem atendimento. É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa das desgraças, das misérias e sofrimentos dos pequenos, dos pobres e dos menos favorecidos”.
Frade Demetrius dos Santos Silva * São Paulo/SPFonte: FOLHA de SÃO PAULO, de 09/08/2009

O homem de palha

junho 7, 2011 2 comentários

Vestimo-nos de palhaço ao menos uma vez na vida.

Há quem faça disso uma profissão, um prazer, uma caridade. É o desejo de ver o outro se divertir ao olhar para os malabarismos, tropeços, vestidos grotescos e gracejos.

Existe um dom nisso: não é fácil fazer o outro sorrir! Isso é tão verdade que não raro, as crianças têm é medo do palhaço. É fácil cogitar o porquê quando imaginamos uma cena em que um adulto está pintado de cores gritantes e um pó branco borrado, falando e rindo alto, com um nariz vermelho como se estivesse inflamado a ponto de explodir, além de ter comportamentos bizarros e espantosos!

Realmente, não é fácil ser palhaço. Ser um personagem que lembra um “homem de palha” a espantar os pássaros da lavoura – isso parece com o palhaço espantando crianças que voltam correndo pro colo dos pais – tornando-se engraçado por ser geralmente mal feito ou então por não servir a função alguma: os pássaros deixam de ter medo e passam a bicá-lo até que ele se destrua, ou então, dormem eu seu braço mortalmente estendido.

Ri-se de um palhaço por saber que as bobagens que ele comete poderiam ser cometidas, ou já foram, por nós e nos aliviamos prazerosamente ao não estarmos naquele papel. Ri-se do erro cotidiano, da falha que estamos sempre aptos a cometer. Ri-se de si mesmo.

Mas rir não é a única saída: pode-se chorar nesse erro, pois parece que cada vez mais o erro não é uma saída. Então estaria aí a função do palhaço? Ele permitiria um espaço para que nós pudéssemos rir, quando não podemos mais? Ou então, ele seria um reflexo do nosso maior temor?

O que parece permanecer intacto é o fato de que todos nós já nos vestimos de palhaço e ainda vamos nos vestir. Vamos rir ou chorar?

Categorias:Crônicas da vida

Coringa, a figura do maldito

     A Sociedade, enquanto um único indivíduo, rege uma série de conceitos que refletem no indivíduo singular, célula do corpo regente. Como resultado de um padrão tecido pela maioria, em uma lógica de natureza democrática, a massa passa a responder de forma similar entre seus iguais, formulando assim uma cadeia de comportamentos que são distribuídos entre seus habitantes para que cada célula cumpra um determinado papel dentro do todo. Muitos cumprem papeis comuns e alguns até chegam a cumprir papeis de subversão. Mas são os mais afortunados (e, por assim dizer, amaldiçoados) que sobram papeis cuja função é a de questionar o sistema de funções. E uma teoria que pode parecer com uma incitação a qualquer tipo de radicalização socialista ou anarquista, se transporta a uma realidade cuja regra máxima de valor deriva da palavra “indiferença”, pois apenas aqueles capazes de serem alheios a qualquer tipo de ideologias, aqueles capazes de optar pelo estado pleno do meio, que enxergam o mundo através de um véu de mediocridade, são capazes de fazer quaisquer perguntas que carreguem em si a ínfima chance de receber uma resposta cuja essência derive de qualquer verdade. Quase como servindo de exemplo, Jostein Gaarden² elabora a figura do nosso maldito: a figura do Coringa. Dentre tantas cartas QUASE iguais, entre rainhas e copas e reis quase iguais, existe em todo o baralho apenas um coringa. Apenas uma carta destinada ao papel do personagem que consegue ser o salvo-conduto de todo o barulho, a peça que carrega consigo a habilidade de reavaliar decisões e remedir chances de vitória. Por fim, o único papel capaz de virar o jogo, a favor de quem? Não sabemos…

     Como bônus ao cumprimento de seu papel, o Coringa é aquele a quem foi reservado o direito de ser indivíduo (individual). A quem foi prenotada a liberdade de construção de um lugar incomum à cidade da massa. E sob a vista de ninguém, nem mesmo a de Deus, ele o faz. Constrói para si, usando o conhecimento coletivo, uma cidade que apenas ele reconhece. Um exercício comodista e apático, características obrigatórias para a construção de uma cidade cujas ruas convergem em apenas um fim: o sentido dado pelo criador. Um exercício onde o homem se faz capaz de experimentar o verdadeiro poder da onipotência divina.

Depoimento de Amanda Gurgel. E resposta.