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Sobre as massas

dezembro 19, 2009 2 comentários

Existe um pequeno detalhe que todo mundo deixa passar.

Quando as pessoas falam sobre o povão, os ignorantes, aquela, que é claramente inferior e estúpida. Quando discursos inflamados mostram a incapacidade do cidadão comum. Quando as vozes ecoam, falando sobre os vermes que não só são incapazes de pensar, mas não conseguem sequer escolher a pessoa certa pra pensar por eles.

Quando políticos, jornalistas, escritores, idiotas ou qualquer outro tipo de sujeito infeliz, arrogante e mesquinho fala sobre as massas

…eles estão falando de você.

E você acha bonito.

A idéia é do Ellis, na verdade. Mas não custa lembrar.

As horripilantes aventuras do Capitão Piratão, tira exclusiva #1

novembro 10, 2009 2 comentários

ultraviolence

Categorias:Defeito Colateral

Mentira

outubro 23, 2009 1 comentário

Ela mesmo, o diabo que assombra o coração dos puros de alma.

Não vou falar aqui sobre a importância de se mentir ou sobre como a falta da verdade nos é, muitas vezes, extremamente natural. Isso é óbvio. Percebam, mentir nos acontece com quase tanta frequência quanto respirar. A verdade é que, aos lábios de todos, soa tão ofensiva e estranha que causa um certo arrepio toda vez que é dita. Ou pelo menos no caso de vocês é assim.

O curioso mesmo é que qualquer mentira é, de algum modo, uma verdade. A sombra criada quando a mentira é contada pode ser sentida. Está lá, na sua cabeça. Presente. É assim que nascem as histórias. É assim que elas mudam. E do mesmo modo, mudam ideais e convicções.

E pode-se dizer que essa “sombra” é inclusive real. Quer dizer, o que diabo pode ser “de verdade” se você disser que o que tá DENTRO da sua cabeça não existe? E é aí que tá meu ponto: uma mentira bem contada faz nascer uma sombra na sua cabeça. Como uma semente no seu vasto campo de imaginação. É uma possibilidade não concretizada, uma verdade fantasma. Mas que tá lá, tremendo as correntes e dizendo um “bu” ocasional, pra te mostrar que ela existe.

Mentir, portanto, é mais do que parece. Um mentiroso é um criador, um artista. Pode ser um deus, até. Por que não? Tudo depende, apenas, do quanto você é capaz de fazer a sua criação durar. Dou-lhes um exemplo:

Em 1943, na California, um homem de trinta e poucos anos contou a todos na vizinhança que era filho de emissários do outro mundo, e que tinha vindo buscar um seleto grupo de pessoas para uma peregrinação, pois se fazia necessária a fundação de uma embaixada dos vivos e de uma escola de teatro, visto que os mortos perdem sua capacidade de representar, no Além. Como o Além vive de sombras e memórias, a mentira teria, portanto, um efeito muito mais sólido por aquelas bandas, o que fazia bastante sentido.

Talvez o homem devesse ter fundado também uma escola de Direito, sei lá. O importante é que, naquele ano, vinte e oito jovens participaram de um suicídio coletivo graças ao homem. O mais incrível? Alguns dos parentes entrevistados acreditam até hoje que eles simplesmente… cruzaram pro além. Pra fundar uma embaixada.

E eu lhes pergunto: Que mal há nisso?

Da Prostituição (e do sentido da vida)

Outro dia ouvi duas velhas a comentar sobre a vida alheia. Uma contava sobre uma certa moça, filha de pais ricos, que fingia fazer faculdade para se prostituir. Outra falava sobre um certo michê que vivia na praia do Rio de Janeiro, tendo sua vida inteira custeada pela venda de seu corpo.

“Mas eu fico me perguntando”, ponderava uma das velhas, “se isso é mesmo vida. Ele dizia que gostava, porque tinha dinheiro pra sair e se divertir, e as clientes levavam ele pra conhecer os melhores lugares, as melhores festas e os motéis mais caros. Mas isso por acaso é vida?”

Acho do caralho como conseguem demonizar a prostituição por séculos e, ao mesmo tempo, exaltar certas outras profissões. Vejam vocês que uma meretriz é nada mais que uma mercadora, uma performista. Como um músico, ela compartilha de suas habilidades em troca de dinheiro. Como o dono de uma casa de aluguel, ela permite que outros desfrutem da mercadoria em troca de dinheiro. Que caralhos tem de demoníaco nisso?

…ah, o sexo.

Acontece que por anos e anos e anos se disse que o sexo é a ação de Satanás na terra através dos corpos humanos. E as pessoas, burras pra caralho, ouviram. Percebam que o sexo é, em primeiro lugar, prazeroso, agradável. A ponto de – se por um acaso não fosse um pecado mortal que te levaria ao fundo do pior poço do inferno – ser uma opção extremamente viável pra se passar o tempo com outra pessoa desejável. Em segundo lugar, ele é necessário. Você faz idéia de quantas pessoas tiveram que trepar só pra que você tivesse a chance de estar aqui me enchendo o saco, por exemplo?

Claro, se o sexo é assim tão maravlhoso, quais são os problemas?

“Me digam vocês”, eu deveria dizer. Mas não.

Em primeiro lugar, eu gostaria de falar sobre o conceito de Miasma, bem comum na grécia antiga. Pra resumir a bagaça, diziam as pessoas que aquele que comete qualquer ato ruim fica “contaminado” pelo mal. E ao se misturar com pessoas contaminadas com o mal, homens de bem também se contaminariam. Por isso, deveria ser evitado ao máximo o contato com impedosos cometedores de sacrilégios, e, quando algum malfeitor fosse detectado, este deveria ser levado imediatamente à Justiça, pois apenas através dela o mal poderia ser purificado. Soa familiar? Não? A idéia de limpar a contaminação (ou sujeira, ou pecado, como preferir) com castigos? Não acho que seja complicado ver como associam isso à história do sexo – até porque muita gente vê o próprio sexo como pecado por excelência. E pra reforçar a viagem torta de vocês, não há evidências visíveis do mal se espalhando através do sexo? AIDS, gonorréia, cancro mole e todas essas coisas são o miasma de satã se espalhando através do pecado carnal… certo?

Outro ponto importante a se citar é a relação extremamente tortuosa que se faz entre sexo e amor. Percebam, meus caros, que ninguém ama tudo aquilo que quer foder. Você não ama a sua vizinha gostosa, seu cachorro não ama a cadela da sua tia, o governo não ama nenhum de nós, seu pai não amava a sua mãe e por aí vai. Agora, claro, a pobre garota trocar sexo por dinheiro? Isso não. Sexo só com o marido, é claro.

Mas o que realmente me incomoda em toda essa pentelhice de velha é a idéia de “vida”. Tá certo, o cara talvez tenha que ter dado o furico algumas vezes em troca de uma grana, mas, sinceramente? Foda-se. O furo é dele, e talvez ele até goste. O ponto é que o tal michê, pelo que foi contado, aparentemente leva uma vida até que bem feliz.

…do outro lado, a gente tem uma velha que passa a tarde tomando o tempo da aula de inglês dos outros pra fofocar sobre a vida de desconhecidos porque a própria não tem graça nenhuma. E aí eu me pergunto: isso por acaso é vida?

A arte de zoar acordos

setembro 16, 2009 2 comentários

Rááá!

Categorias:Que porra é essa? Tags:

Sobre o diabo, vadias e os jogos da cidade

Ouvi dizer que o diabo gosta de subir à Terra pra espalhar o caos de tempo em tempo. Parece verdade, já que deve ser um porre aguentar o tipo de gente que desce pro inferno. Imagine você acordar com Charles Manson perguntando se seus filhos já saíram pra escola, a Madre Teresa de Calcutá querendo saber mais sobre sexo anal ou até, sei lá, o Michael Jackson enchendo o saco.

Acontece que certo dia, quando estávamos eu e meu fiel camarada Podrão a caminhar pelas ruas, me parece que o diabo resolveu pregar uma de suas peças. No meio da noite, os letreiros mágicos de néon piscaram diante de nós, iluminando o caminho para uma certa boate de classe média-alta. Como parte dos truques infernais de Satanás, fui confundido com um dos nobres convidados, e me jogaram pra dentro quase tão rápido quanto arremessaram o velho Podrão pra fora.

O demônio é um notório adorador dos jogos, como todos bem sabem, e não há lugar melhor para os jogos da cidade do que uma boate de classe média-alta com lista de convidados da high society, se é que vocês me entendem. Não se pode gastar a noite, vocês sabem disso. Não se pode gastar a noite.

Foi tendo isso em mente que eu já sabia de tudo quando a vi. O balançar de seu cabelo loiro com uma sensual mecha colorida indicava que o jogo havia iniciado. Os passos seguintes eram apenas naturais: a aproximação, a conversa, a bebida…

O ponto é que em questão de minutos estávamos lá, como o diabo esperava, na mesa certa, na hora certa, com a música certa. E o jogo ainda estava no ar, você podia claramente sentir isso. O ar estava cheio de tensão, e a emoção do momento trazia o suor a nossas testas e tornava as mãos frias como facas. A hora fatal se aproximava. Foi quando ela se inclinou em minha direção, num movimento desesperado, rumo ao golpe fatal, fechou os olhos… e então nós dois sabíamos que o jogo havia acabado.

-Rá! Piscou, fela da puta!! Ganhei!!

-Mas hein??

Fui surpreendido por uma expressão de espanto e um grito de ódio, e devo dizer que não foi nada agradável quando o copo de rum da moça atingiu o meu queixo. Vadias não sabem perder.

Eu sou mesmo o big mothafucka no jogo de piscar.

Categorias:Humor, Velho Resmungão

Antropofagia.

(…)Ocorreu-lhe, um dia, que talvez por trás daqueles óculos escuros franceses ou do traje italiano estivessem olhos e pele tais quais os seus próprios. Ainda não era suficiente. Olhando pelas janelas límpidas, tinha a impressão de que a alma era maior. Deixando-as intactas, como uma luneta sempre alerta esperando por terra firme, arrancou-lhe a pele, aquele escudo morto que o tentava impedir de chegar ao núcleo do Ser, ao fim de sua busca. Rasgando-lhe a carne com a selvageria de um animal faminto, pôs-se a provar as entranhas daquilo que já não era mais, de modo algum, um ser humano.

Horrorizou-se com a percepção súbita e insustentável de estar saboreando carne como a sua, mas sua Fome era, nesse momento, insaciável – no meio de tripas, rins e toda sorte de vísceras havia de estar a Essência. Dentadas insensíveis dilaceraram o fígado sem que delírio mitológico algum fizesse com que a Tarefa se acabasse. Estômago, pulmões e coração não eram mais que bifes insossos diante de Sua Fome, cega e irrefreável. Pelo crânio perfurado, o cérebro era rapidamente sugado – como a polpa de uma fruta sem nutrientes.

Restavam, por fim, os olhos. Por trás deles, dois poços sem água nem fundo, revelando aquilo que mais se temia – além daqueles tenebrosos buracos negros, não havia nada além de ossos.

…e os ossos, meus caros – os ossos se partem por igual.

Categorias:Velho Resmungão