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O homem de palha

Vestimo-nos de palhaço ao menos uma vez na vida.

Há quem faça disso uma profissão, um prazer, uma caridade. É o desejo de ver o outro se divertir ao olhar para os malabarismos, tropeços, vestidos grotescos e gracejos.

Existe um dom nisso: não é fácil fazer o outro sorrir! Isso é tão verdade que não raro, as crianças têm é medo do palhaço. É fácil cogitar o porquê quando imaginamos uma cena em que um adulto está pintado de cores gritantes e um pó branco borrado, falando e rindo alto, com um nariz vermelho como se estivesse inflamado a ponto de explodir, além de ter comportamentos bizarros e espantosos!

Realmente, não é fácil ser palhaço. Ser um personagem que lembra um “homem de palha” a espantar os pássaros da lavoura – isso parece com o palhaço espantando crianças que voltam correndo pro colo dos pais – tornando-se engraçado por ser geralmente mal feito ou então por não servir a função alguma: os pássaros deixam de ter medo e passam a bicá-lo até que ele se destrua, ou então, dormem eu seu braço mortalmente estendido.

Ri-se de um palhaço por saber que as bobagens que ele comete poderiam ser cometidas, ou já foram, por nós e nos aliviamos prazerosamente ao não estarmos naquele papel. Ri-se do erro cotidiano, da falha que estamos sempre aptos a cometer. Ri-se de si mesmo.

Mas rir não é a única saída: pode-se chorar nesse erro, pois parece que cada vez mais o erro não é uma saída. Então estaria aí a função do palhaço? Ele permitiria um espaço para que nós pudéssemos rir, quando não podemos mais? Ou então, ele seria um reflexo do nosso maior temor?

O que parece permanecer intacto é o fato de que todos nós já nos vestimos de palhaço e ainda vamos nos vestir. Vamos rir ou chorar?

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Categorias:Crônicas da vida
  1. Jonny
    junho 9, 2011 às 11:48

    ““ O nariz de palhaço é a menor máscara”, disse o comediante alemão Toon Hermans algumas décadas atrás. Ainda nos dias de hoje a frase é utilizada significando que o nariz vermelho, na verdade não esconde e sim revela a pessoa por trás dele. Eu me pergunto quantas pessoas são realmente capazes de compreender o que um clown revela, e melhor ainda, a pequena porção de si que esconde com sua pequena máscara. Dizem que aproximar-se do ridículo é aproximar-se da humanidade, que ser clown é uma lição de aceitação do fracasso, da tentativa fracassada de sermos perfeitos para o mundo em que vivemos. Concordo com Carlos Messala quando diz “Nesse mundo que mais parece um circo de horrores, prefiro ser palhaço.””

    Eu sou uma palhaça que não usa maquiagem.

  2. sâmea
    novembro 21, 2011 às 08:40

    chorar! Lágrimas são menos falsas, em mim. Adorei! E ainda assistirei pela terceira vez o palhaço e lerei mais uma vez seu texto. Topas uma segunda dose?!

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