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Quando muita se fala e pouco se faz

Apesar do título, este texto não tem por objetivo angariar odes de horror contra a hipocrisia básica daquelas pessoas que falam, falam mas que não agem.

Acontece que, em Porto Alegre, aumentaram o valor da passagem urbana de R$ 2,45 para R$ 2,70. Acontece que fizeram passeatas por causa disso e acontece que está chovendo e o ócio come meus órgãos…

Uma coisa que me deixa curioso sobre essas passeatas de protesto é que as pessoas me deixam claro que elas ainda acreditam que passeatas adiantam de algo… Vocês já perceberam? As tentativas, falhas umas atrás das outras, ainda não as ensinaram que até mesmo o poder público brasileiro já desistiu de aplicar mudanças de maneira plana e branda. Nossa última lei aplicada ao trânsito: Lei Seca. Ela é simples e clara: pegou sujeito mamado? vai preso! (o.k. sabemos que a teoria é linda e a prática é torta, mas o que quero deixar claro aqui é a pretensão). O poder público está nos deixando claro que, até para eles, a tolerância tem que ser ZERO.

Tolerância para que? No final das contas, a tolerância te deixa com a cara que você já tem: um povo acomodado que não faz. E quando faz, não muda nada! É um ciclo vicioso que, se vocês ainda não perceberam, só os puxa cada vez mais para baixo. Mas porque ser contra a tolerância? não é assim que nos tornarmos bárbaros? não seria com o fim da tolerância o começo do caos público? pois é que seria! mas do que a ordem tem vos adiantado?

A alguns tempos atrás, a Carris (nossa querida empresa de transporte público porto-alegrense) alegava que não existia possibilidade de aumentar a frota de ônibus do bairro Restinga, em Porto Alegre. E vocês sabem que bastaram dois ônibus queimados para que eles aumentassem a frota consideravelmente? A acomodação da empresa, sentada em seu trono de monopólio, não faz mais do que o correto para seus negócios: aumentam os preços e mantém a “qualidade” do que já tem, afim de cobrir um suposto aumento de gastos e um possível aumento nos lucros. Não podemos culpá-la por tomar uma decisão que faz bem aos negócios. Isso seria como esperar que você não possa vender seu carro por que você dá carona a um colega de emprego. O interesse maior é do dono, o carona e sua vida não fazem parte dos problemas do proprietário, como a vida dos usuários não faz parte dos problemas da vida dos donos da Carris. Não sejamos TÃO hipócritas: vamos aceitar que eles tem o direito de tomar decisões que julguem o melhor para seus negócios.

Por que a partir do momento que admitimos sua liberdade de aumentar os preços das passagens, podemos admitir nossa liberdade de fazermos o que bem entendermos nas ruas. Se quisermos queimar um ônibus ou dois, só para lembrá-los que se pretendem aumentar os preços, que ao menos nos ofereçam um serviço de maior qualidade ou nos justifiquem de outros meios o aumento das passagens!

A verdade é que hoje em dia temos discursos tão inflados sobre amor, paz e sociedade, que esquecemos que todos nós temos um médico e um monstro dentro de nós. Tentamos cada dia mais trancafiar um monstro quando, na verdade, deveríamos doutriná-lo para que possa ser usado para o nosso bem-querer. Acho que já podemos parar de fingir que somos civilizados quando sabemos que nossa civilidade só o que faz é arriar nossas calças para meter os punhos no nosso cu, né?

Mas no final, não esperem de mim a iniciativa para nos erguermos e queimarmos algo. Não faço isso e não é assim que eu coopero para que um dia vocês deixem de ser a merda que vocês são. O meu trabalho, o que eu faço para cooperar com a causa de uma sociedade com a qual eu minimamente me importo, é escrever. Na esperança de despertar em vocês algo que eu tenho desperto em mim, e que a mim faz muito bem. Libertem seus demônios e usem sua fúria para fazer algo mais do que falar e ver suas opiniões sendo destroçadas no momento que um prefeito sansiona uma lei.

Como já dizia o sábio V: não é o povo que deve temer seu governo, é o governo que deve temer seu povo.

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  1. rodrigonunesouza
    fevereiro 10, 2011 às 15:43

    transporte publico deveria ser gratuito ja que eh garantido como direito constitucional

  2. fevereiro 10, 2011 às 22:58

    Aqui em Belém, deveriam nos pagar pra que a gente use algumas “carroças”! heheh

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