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A insurreição do vituosismo e outras bobagens sobre arte

Só para lembrar a todos vocês que tem um estudante de Artes no blog, decidi escrever um texto sobre a nova tentativa de alguns alunos do Instituto de Artes da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) para relembrar e questionar algumas coisas.

Em uma proposta de modernização do antigo currículo (já engessado e ultrapassado) de Artes Visuais, a UFRGS decidiu fazer algumas mudanças nos seus planos de ensino, fazendo disso um estresse para alguns alunos sem paciência e que gostam de reclamar, particularmente. Basicamente no antigo currículo você decidia uma ênfase antes mesmo de começar a estudar, “vou fazer artes com ênfase em pintura”, e assim você poderia conhecer cerâmica e não poder terminar o curso como ceramista, por que você já escolheu ser pintor (o problema é seu se você não conhecia cerâmica antes…). No currículo novo, você monta seu currículo como você bem entende, fazendo as cadeiras que lhe abrirem de possibilidades. Eu preciso seguir adiante meu raciocínio e mostrar por que o novo currículo é melhor? Não?! Ah, que bom!

O problema, de alguns, é que o novo currículo se modernizou não apenas na organização como também em seu material de aprendizagem. Seguindo uma fórmula não-clássica, o Instituto de Artes decidiu, por excelência, que o ensino da arte deveria seguir a arte expositiva que nos circunda. Sendo assim, algumas cadeiras extremamente técnicas e formalistas (do tempo da vovó) caíram, sendo jogadas ao esquecimento por sua total falta de competência e compatibilidade com o sistema atual das artes. Um exemplo disso é a cadeira “Desenho da Figura Humana”, basicamente o ensinamento de cânones clássicos com medidas supostamente perfeitas para a criação de uma representação não-fidedigna e idealizada do aspecto geral de um ser-humano. Necessário citar que muitos alunos novos, desinformados quanto à formação que terão no Instituto de Artes, atualmente organizam uma lista de pessoas que querem a volta da cadeira de anatomia. Eu obviamente não assinei.

Mas por que eu não assinei? Porque me coloco contra? Tenho basicamente dois bons motivos: 1º – o IA é uma escola de arte que segue padrões vigentes no mundo das artes plásticas contemporâneas, se você não sabe disso é problema seu! troque de curso. 2º – acreditar em fórmulas e virtuosismos na arte atualmente é como pedir…. é tão inútil que nem em uma comparação eu consigo pensar.

1º motivo: Muito se fala sobre a UFRGS nos campus. Votações do DCE, com chapas de “esquerda” (mais uma vez essa palhaçada) dizendo que querem uma UFRGS pública e livre. Bom, não vou entrar neste mérito, mas a questão é que esta discussão agrega um dos problemas do virtuosismo na arte: as pessoas pensam que o IA não é um sistema, elas não enxergam o instituto de artes como uma academia. Pensam que por ter gente estranha lá dentro é tudo meio liberado, uma putaria sem limites. O que não é verdade. Precisamos nos lembrar que o IA é sim uma instituição, uma academia, que segue regras e ensina um trabalho como qualquer outro. Arte é trabalho! Para que possa ser lecionada uma profissão a um aluno, o IA não pode abrir as pernas e deixar qualquer coisa passar, por mais branda da forma que o faça. É sim exigido dos alunos um grau de qualidade, e essa qualidade não é técnica, pois esse requisito já não existe mais no nosso sistema das artes contemporâneo. Se modernizando como qualquer outra profissão, o instituto de artes é sim obrigado a moldar-se com o conjunto da sociedade para a qual ele cria profissionais, formando então não mais pintores de naturezas-mortas bonitinhas ou itens de decoração, e sim artistas-pesquisadores, críticos de seu trabalho. Pensadores críticos, acima de tudo. Por isso a solução aos que procuram aprender a desenhar, modelar e pintar de forma realista: adequem-se ao sistema, ele existe e não adianta vocês o negarem! ou então troquem de curso, como eu falei. Vão fazer curso na Linna, no ateliêr livre, se quiserem vender suas coisas no Brique da Redenção ou na praça da andradas.
E antes que venham me dizer que se adequar ao sistema não cabe aos alunos comunistas-revoltados-rebeldes do IA, saibam que revoluções não existem. O sistema das artes é tão FILHO DA PUTA que ele faz da revolução um produto como qualquer outro, e é por isso que eu amo tanto ele e o capitalismo… aiai.

2º motivo: O grande problema do segundo motivo são os alunos iniciantes do instituto de artes, que enxergam-o como um grande curso de artesanato federal. Vindos dos mais variados cursos de desenho (mangá, figura-humana, técnico…) e pintura (natureza-morta, figurativo ou abstrato…) esses alunos acabam vendo a instituição como uma extensão do que é produzido nos mais banais centros de ensino técnico de todo o país. Muito alunos entram no IA sem, por exemplo, terem freqüentado alguma vez um museu, sem terem de fato se informado sobre a formação que teriam ao eleger como meta se formarem “artistas plásticos” sejam bacharéis ou professores.

Não estou querendo me impor contra uma cadeira que tem como base o corpo humano. Inclusive, sou totalmente a favor de uma cadeira, não necessariamente de desenho, que tenha como base o estudo do corpo. O problema todo é, tendo em vista a propusente que deu início a lista, que sei que a matéria não irá propor o estudo crítico e individual do corpo, e sim um estudo universal e sintético da forma, como se todos os corpos fossem carnes iguais. Essa perseguição ao fim do individualismo e do livre pensar de cor, tom e forma é que me deixa com coceiras! não posso acusar a cadeira de ser uma perseguição ao enterrado conceito de belo, mas tenho certeza de que as chances de isso acontecer são grandes (principalmente com atitudes e olhares dos alunos aos trabalhos uns dos outros).

Para resumir e começar o ano bem aqui no blog (sim, é o 1º post do ano): vão se fuder vocês que acreditam que um trabalho bom é um trabalho bonito! vão chupar um cu sujo vocês que não tentam enxergam a teoria por trás da prática! vão sentar num pão mofado vocês que tem por objetivo sair da faculdade usando o mesmo nanquin sobre papel que todo o resto! vão se fuder vocês que fazem textos falando contra cadeiras de desenho da figura-humana e mando um SE FUDER suuuuuper especial a todos que leram essa bosta até o final! (eu amo vocês)

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  1. Jonathan Zanon Linhares
    janeiro 12, 2011 às 17:38

    Nossa gente… Tava sapeando nos blogs e encontrei o de vocês…. Muito bacana…. Os temas, a forma livre como escrevem…..

    Já adicionei aos favoritos….

  2. NM
    janeiro 13, 2011 às 21:25

    Acho que tu tem uma visão muito romântica (ou deslumbrada do IA) porque quase todo outro estudante de artes que conheço não fala tão bem assim como tu, mas divago

    ”formando então não mais pintores de naturezas-mortas bonitinhas ou itens de decoração, e sim artistas-pesquisadores, críticos de seu trabalho. Pensadores críticos, acima de tudo.”

    O IA como uma instituição não se preocupa com os alunos ou com a formação deles, aliás, nenhum curso deve fazer isso. Eles não se importam com a individualidade que o aluno vai desenvolver durante o curso, talvez um professor que outro sim, mas o instituto? Não mesmo. Ele se importa é em ter alunos e que de tempos em tempos eles se formem. Se sairá de lá o novo picasso ou um artista de merda o curso realmente não se importa.
    Os motivos por troca de currículo são vários, as vezes nem é culpa da instituição que responde ao MEC. Se o Mec não aceitar a troca do currículo o curso não muda, assim como o mec tem poder para modificar os moldes.

  3. raphaelzaratustro
    janeiro 16, 2011 às 19:57

    Não estou satisfeito; eu criei este blog para mais, não aguento hipocrisia, temos que chegar a alguma verdade. não dá! essa vida não é uma piada. eu acho. obrigado por existirmos.

  4. rodrigonunesouza
    janeiro 18, 2011 às 09:01

    Pelo que entendo, um curso de licenciatura ou bacharelado em artes nao eh um curso voltado pra formar um artista, mas sim um professor ou um pesquisador de arte.
    Artista mesmo pinta o seu proprio diploma.

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