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A Última Folha.

O poeta estava mais uma madrugada trancado em seu quarto, tentando compor um poema. O seu maior problema era como sair do lugar comum aonde estacionou a poesia contemporânea. Pensou que o seu maior problema era estar só, quando todos do seu perfil estavam saindo e bebendo. Pensou que a poesia não é feita pra se fazer em casa, mas no bar. Poesia precisa de embriaguez. Talvez porque precise de sinceridade, de ingenuidade. Um mundo tão esperto, tão cheio de diferentes inteligentíssimas vontades. O poeta no quarto, tentando pensar em suas vontades. A vontade é escrever um poema, ser um grande poeta. Mas poesia não se deveria pra ser grande, ser feita em um quarto tão pequeno, e sobre isso o poeta, já teria antes refletido. Mas o bar, que bar? Que dinheiro? Ficar sentado sozinho numa mesa de canto, em luzes pouco iluminadas. O poeta tem de se libertar desse sentimento fanfarrão, que mais o está o tornando um humorista. Afinal, se pensarmos bem, as piadas populares são o melhor gênero dos últimos decênios, os bares sim são lugar de poesia. E poesia precisa, se for boa causar risada. Nem que apele pra escatologias baratas, e voltamos aos lugares comuns e ao quarto do poeta. O poeta decide então começar a poesia pelo quarto, e a partir do quarto ir imaginariamente por todos os bares.
O poeta achou a idéia uma merda.
Resolveu que sua poesia tinha de ter mais engajamento social, sim, nas suas convicções ideológicas, e, sobretudo na divulgação do seu martírio em nome da humanidade. Pois sim, o poeta é uma alma condenada.
O poeta se levantou, acendeu um cigarro, e olhou pela janela. Viu o movimento da madrugada viva. Respirou o ar da inspiração e decidiu de cigarro na boca que ia escrever qualquer coisa que fosse, e depois daria um sentido.

“Uma última folha espera o derradeiro puxão do vento pendurada no galho.
Resiste em luta vencida o sopro do frio que a puxa ancorada no orvalho,
Que espante os vampiros eternos do medo da morte a cruz e o alho
Sabe que a hora que galga não espera a demora de um ciclo contínuo. “

O poeta, leu de novo, trocou algumas vírgulas, algumas palavras que considerou despudorada, e resolveu manter esse o esquema.
A história da última folha de uma árvore sendo levada pelo vento. Isso ai depois, o poeta pensa em cruzar com alguma coisa do cotidiano, que seja um problema complexo. Portanto, decidiu que iria escrever um soneto.
Quando leu de novo, percebeu que não conseguia respirar direito e resolveu dividir o poema. Tirou as últimas palavras de cada verso e as reaproveitou no trecho final as suas rimas… o verso inicial ficou assim;
“Uma última folha espera o derradeiro puxão do vento
Resiste em luta vencida o sopro do frio que a puxa,
Que espante os vampiros eternos do medo da morte
Sabe que a hora que galga não espera “

Pendurada no galho. Ancorada no orvalho, a cruz e o alho. A demora de um ciclo contínuo.
Parece que ficou tudo pior do que já estava, mas já que já perdeu o tempo assim, resolveu prosseguir.
Não espera o tempo a esperança,
Não sente o vento sua vida morna,
Não julga a morte o destino das folhas,
Não foge a folha do seu destino morte. —-
O difícil foi àquela história do poeta ter inventado vampiros, ele não sabe, mas é por causa da infantilidade meio nerd dele. Que destino sádico esse. Poeta Nerdzão, que joga RPG.
O pior, é que nenhum de seus amigos tem potencial para tirar sarros à altura do que mereça. No entanto cabe ao narrador ter o grato prazer de rir da desgraça de suas crias.
Resolveu intuitivamente acabar com esse papo de vampiro, que afinal o poema estava até que ficando bom. Uma folha caindo é um símbolo pra muitas coisas que não podem ser descritas em palavras. E melhor do que um panfleto social, ou de um poema todo sistemático, tentar usar uma linguagem mais prática e simples. Acabar com esses sinônimos monstruosos, e as redundâncias desnecessárias, caçar meia dúzia de advérbios.
“ última folha que espera o vento,
Não espera o tempo a esperança
Em luta vencida o sopro do frio,
Que espante os eternos do medo da morte

Sabe que a hora que galga não espera
Não sente o vento sua vida morna,
Não julga a morte o destino das folhas,
Não foge a folha do seu destino morte”

O poeta se animou, gostou do que saiu. Resolveu então dar a enxugada final no poema e brincar com as formas. Pensou ainda que devesse desistir da idéia de um soneto, agora que o dia está quase clareando mais parece que pode lhe dar sono. Seguiu a inspiração, mãe de todas as técnicas.
“E aonde fica guardado nos arquivos dos aléns,
As lembranças desse poucos instantes,
Em que solta e não mais relutante,
Navega pelo ar que vais e vens. “

Resolveu fechar o poema.
O poeta, releu tudo e achou uma grande porcaria e jogou fora o seguinte poema, que aqui reciclei.

Última folha

Última folha que espera o vento,
Não espera o tempo a esperança
Em luta vencida o sopro do frio,
Que espante os eternos do medo da morte
Sabe que a hora que galga não espera
Não sente o vento sua vida morna,
Não julga a morte o destino das folhas,
Não foge a folha do seu destino morte
E aonde ficam guardadas nos arquivos dos aléns,
As lembranças desses poucos instantes,
Em que folha e não mais relutante,
Navega pelo ar que vais e vens?

—–

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  1. raphaelzaratustro
    junho 14, 2010 às 15:29

    O poeta que finge fingir a dor que deveras sente fingidamente, eh um falso.

    No lugar da dor que se finge doer, na alma prudente

    alianca de fio-de-dente.

    Pega o pente e penteia a sua sogra,

    lava os pes da senhora.

    Pega de meio o anseio que engoda e te livras eternamente.

    Acomoda-se, ai esnoba-se e se perde…

    Mas voltas. Quando te voltas ? `As eternidades de um fim sem um fim?

    Ou a mim…

    Minha aurora te aguarda, te implora,

    ateh que me escapo no meio de fortalezas,

    quando te vejo.

    Minha coragem se engorda, nos teus seios.

    Sou mais teu.

    Alma velha.

    So nao sei porque a sogra.

  2. rodrigonunesouza
    junho 15, 2010 às 04:41

    Respeite minha sogra, senão vou ter de desafia-lo a um duelo público.

  3. raphaelzaratustro
    junho 16, 2010 às 08:01

    Desculpe, eu estava pensando era na minha, mesmo porque a sua eu nao conheco. Por favor, uma so sogra ja eh demais. Mas como a arte eh viva e a interpretacao eh pessoal…

  4. rodrigonunesouza
    junho 16, 2010 às 18:28

    Achei que ia rolar um duelo público.

    Como está o clima em Auckland ? eu tenho parentes na new zelland, dois primos, um em auckland o outro em wellington.

    Falei ontem com o brasilia.

  5. raphaelzaratustro
    junho 17, 2010 às 00:31

    o brasilia estah muito bem! E toda a parentaiada.

    Tem quem Tem casorio, tem nenem e pijaminha, tem cobertor.

    Tem historinha de ninar. Tem presente, e, enquanto nao vem o papai-noel,

    nao tem natal.

    Tem velinhos e tem nascimentos, tem os amigos e as historias dos amigos…

    Eh o amar, as vezes nao sem calar.

    Colar de presentes.

  6. rodrigonunesouza
    junho 17, 2010 às 04:11

    O enigma dos aborigenes está lançado.
    Como se reza o pai nosso em Maoiri ?

  7. raphaelzaratustro
    junho 18, 2010 às 02:02

    Conversa mole. Diga vc.

  8. rodrigonunesouza
    junho 19, 2010 às 04:01

    E to matou Matua i te rangi,
    Kia tapu tou ingoa.
    Kia tae mai tou rangatiratanga.
    Kia meatia tau e pai ai ki runga ki te whenua,
    kia rite ano ki to te rangi.
    Homai ki a matou aianei he taro ma matou mo tenei ra.
    Murua o matou hara, me matou hoki e muru nei
    i o te hunga e hara ana ki a matou.
    Aua hoki matou e kawea kia whakawaia;
    engari whakaorangia matou i te kino.
    Nou hoki te rangatiratanga,
    te kaha, me te kororia, ake, ake.
    Amine.

  9. raphaelzaratustro
    setembro 19, 2010 às 15:35

    Se fosse pra mentir, com quantos anos o senhor diria que vendeu a alma para o Diabo, Rodrigo Bode?

  10. rodrigonunesouza
    setembro 19, 2010 às 17:28

    Quem mente aqui é o senhor.

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