Início > Defeito Colateral, Velho Resmungão > A minha revolta contra as revoltas

A minha revolta contra as revoltas

 Muito frequentemente eu vejo, pelas ruas, cenas de revolta contra a morte, assassinatos e erros médicos em sua maioria, de pessoas famosas ou não. Casos como o de Isabella Nardoni, de João Hélio, mais recentemente do cartunista Glauco e tantos outros. Revoltas que se retratam em outdoors, com fotos e pedidos de justiça, fechamentos de ruas, passeatas com pessoas vestindo camisas com imagens das vítimas e carregando bandeiras.

O fato é que não se protesta longamente contra o assassinato de milhões inocentes que ocorrem todos os dias, em todas as partes do país. Não se carrega a imagem desses desconhecidos de classe baixa, para reivindicações de justiça. O máximo que ocupam são as páginas de um jornal no caderno policial, para deliciar o povão que terá “argumentos” para reclamar da falta de proteção, segurança, etc. Reclamam, porém, sem nada fazer…

Outros alvos para culpar mortes são os famosos erros médicos. O questionamento é sempre o mesmo: “Estudou tanto pra quê?”. Como se o ser humano não fosse passível de erros… Como se o médico, por ser médico, tenha que ser O profissional que não erra nunca porque tem muitos anos de estudo. Ora, não estou aqui defendendo de forma generalizada, pois sei que existem casos específicos merecedores de punição. Mas, algumas vezes, quer-se descontar num médico uma morte que não poderia ser evitada, uma fatalidade. Como vi outro dia, um homem sofreu infarto e foi para o hospital, ficou sob observação por três dias, recebeu alta. Em casa, no dia seguinte, sofreu outro infarto e morreu. Adivinham quem estavam culpando? Claro, o hospital, os médicos, enfim…

Reagem contra estes acontecidos abrindo processos,  querem justiça  ganhando dinheiro, às vezes. Ou através de congestionamento de ruas, avenidas, por onde passam pessoas que tentam seguir seu dia, sua jornada de trabalho, e que são impedidas.

Assassinos merecem ser punidos, sim. Erros graves merecem uma avaliação e, talvez, punição também. Mas, isso deve ser válido para todos. Não apenas para os afortunados. Reivindicar os bem comuns, sim. E segurança é um deles. Mas, de forma justa, visto que é em prol da justiça…

Parece tão comum que o ser humano só pense em si, já estamos acostumados. Mas, preciso deixar que registrado que não entendo esses tolos protestos/passeatas/pessoas caminhando sem saber por quê.

Esse é o meu protesto contra os protestos. É a minha revolta contra as revoltas.

___________________________________________________________

Nota: Os comentários a seguir me fizeram repensar alguns destes conceitos. Merecem ser lidos!

Anúncios
  1. rodrigonunesouza
    março 23, 2010 às 04:27

    Bem, devemos realmente nos revoltar com o que é revoltante e não entendo como não ser possuído de tal sentimento diante dos três exemplos que decides inaugurar o teu texto.
    Assassinatos e erros médicos são de fato revoltantes.
    Eu por exemplo, perdi minha bisavó graças à um erro médico. Todos erram, tudo bem, os zagueiros do Palmeiras vivem errando, e são profissionais. Acontece que minha bisavó em seus 93 anos pegou uma gripe, e o médico não conseguiu identificar o que era a gripe. Como sabemos, mandou ela fazer uma bateria de exames, endoscopia, radiografia, exames pra identificar câncer… Mas que erro é esse que não encontra uma simples gripe, que depois de dois meses quando a levamos ao Rio de Janeiro o médico imediatamente diagnosticou pneumunia por gripe não tratada, e no caso de um idoso lhe custaria a vida. Tudo bem, ela já tinha 93 mesmo, o que poderia esperar da vida.
    Poderia esperar ver seu time Flamengo depois de tantos anos ser campeão brasileiro ? Ou poderia esperar nascer o meu filho seu tataraneto, que sei lá se nasce quando … qualquer hora pode acontecer… É fácil quando não é conosco, quando não é nossa mãe que morre porque um anestesista estava dopado de anfetaminas. E sabemos que os erros médicos são muito mais por incompetência e descaso do que na sua maior parte erros humanos de quem apenas tentava cumprir sua missão de profissional.
    É muita ingenuídade não querer ver a situação da total falta de ética dos que se vendem por um sistema em que se atende um paciente em 10 minutos pra receber mais dinheiro, e se indica medicação mesmo quando não necessária por receber da indústria percentual… e afirmo do alto do meu chute, isso ai é coisa que mais de 90 porcento dos médicos desse país tem feito.

    Quanto ao caso de assassinatos, não acho nada anormal alguém se revoltar com um pai que joga a filha pela janela, e uma madrasta que o convence de tal ação.
    Acho estranho alguem não se revoltar com algo tão revoltante.
    As revoltas construiram nosso mundo. O conhecimento que era escravizado pela religião opressora medieval se revoltou e gerou a ciência moderna que temos agora; A sociedade humana se revoltou com a escravidão, e hoje ela é combatida em todo o planeta embora ainda exista; A questão da discriminação racial que antes era normal gerou revolta; A perseguição aos homossexuais que atualmente tem lutado por direitos iguais, e por sua revolta tem conseguido conquistas significantes nas últimas décadas; A revolta contra o comunismo que levou esse sistema à falencia no mundo inteiro; A revolta contra a ditadura militar que nos trouxe novamente a democracia; A revolta contra a monarquia absolutista na frança, contra o nazismo alemão. Até os presos, assassinos, bandidos, sequestradores, salafrários, na cadeia se revoltam contra um estuprador e o fazem ser a mocinha da cela.

    O homem não tem como fugir do direito de discordar. E discordando do que existe, ele acaba se revoltando.

    Se a mídia comemora uma tragédia, e as pessoas fazem cartazes, e se alguém é conta isso, naturalmente parece ser contra principios democráticos da liberdade de expressão e da manifestação de suas opiniões.

    O direito de protestar é garantido na constituição. Não entendo porque não se pode protestar por aumento de salário, se há aumento exagerado de lucro do empresário, mas se pode parar uma rua porque a madonna está hospedada em um hotal.

    Se a policia invade uma comunidade pobre e abusa de seu poder, estupra, humilha, violenta, rouba e apavora os cidadãos, porque essa gente não tem o direito de queimar pneus e parar o trânsito? É a única maneira de dizer; Gente, olhem o que está acontecendo, não somos bichos, nós somos humanos, cidadãos, temos direitos.

    É uma pena que a realidade seja dura, e que os meios pra se conquistar a liberdade sejam esses.

    Não da pra entender como não se revoltar com a situação da miséria no mundo. Como não se revoltar com os rumos da politica nacional, como não se revoltar com o descaso.

    Aos que não tem motivos para tanto, que gozam de seus direitos, querer impedir o próximo de achar ruim o que é ruim, é algo mais que desumano.

    A revolta é necessária, e sem revolta teriamos apenas a omissão. Apoiaremos os médicos a errarem e diremos que isso é normal, como que é normal um pai jogar a filha da janela, ou um louco que diz ser jesus dar um tiro no pai e no filho na frente da mulher.
    Não devemos nos revoltar com um médico que dá alta a um sujeito que deve ficar em observação, mas que deu alta para economizar custos. Não devemos nos revoltar com os abusos de poder, com as promessas não cumpridas, com o dominio dos bandidos nas zonas pobres.
    Devemos criticar aos que defendem o que é correto, criticar a imprensa por noticiar o que nos desagrada, criticar os jornais por não nos mostrarem que o mundo é a disneylandia que sonhamos viver.
    Seria melhor voltar à ditadura militar, onde qualquer suspeito deveria ser morto ou torturado, onde qualquer peça de teatro poderia ser invadida até espancarem todos os espectadores, atores, produtores, faxineiros e vendedores de pipoca.

    Fica realmente complicado concordar com qualquer discurso nesse gênero. Vai totalmente contra tudo o que chamo de ética.

    Posso não concordar com uma palavra do que disseres, mas defenderei o seu direito de dizê-las, como já disse algum revoltadinho.

  2. março 23, 2010 às 08:57

    A grande verdade, é que só nos revolta quando acontecem conosco … o rodrigo deve ter se revoltado com o erro médico que custou a vida da avó dele, mas não deve se revoltar da mesma maneira com o médico que errou com uma pessoa que ele não conhece!

    Acredito no direito que as pessoas tem de se revoltar e ir as ruas, só peço para que elas não façam isso enquanto estou dentro de um ônibus lotado com elas me atrasando …

    Sabe Marcela, eu te entendi. Rodrigo, pare de levar tudo ao pé da letra rapaz, ela não quis dizer ser contra manifestações, só o que ela está fazendo é ser contra manifestações que atrapalham o dia-a-dia dela. Eu to me lixando pras passeatas, mas passo a odiá-las quando elas atrapalham o trânsito, por exemplo. Ela só está sendo hipócrita, como todos nós somos e admitimos isso através de 210 posts nesse blog.

  3. rodrigonunesouza
    março 23, 2010 às 16:42

    Pois sim, se as pessoas estão irritadas, e ninguém se importa com isso nada acontece… Se elas estão revoltadas, e por conta disso atrapalham os outros cidadãos que nada tem a ver com isso, todos ficam revoltados. Agora, vão se revoltar ou com as pessoas que reclamam e param o transito ou vão se revoltar contra quem é responsável por isso. É como uma criança que chora para incomodar o ouvido alheio, até que alguém percebe que é só uma criança e que o choro dela está atrapalhando a quem nada tem a ver com isso; culpam o responsável pela criança pra que ela chore.

    Muito raro é querer culpar a criança pelo choro.

    Se existe um protesto de gente insatisfeita, na grande maioria dos casos essas pessoas têm muitos motivos para estarem protestando. Como uma criança tem motivos para o choro. Podemos culpar essas pessoas ou a causa dessas pessoas estarem protestando.

    Se uma criança chora de barriga cheia, ai sim culpamos a criança, que está amamentada e agasalhada e não tem motivos para choro, o mesmo se dá com protestos sem finalidade, na pior das hipóteses suspeitamos que o responsável no caso da criança ou o governo no caso da população revoltada educou mal esse comportamento de reivindicação.

    Basicamente é isso. Se você se irrita com o transito parado por um motivo qualquer, o objetivo de pararem o transito é justamente lhe irritar, pra que se tome uma posição sobre o assunto; Ou culpas a criança que chora ou o responsável pelo seu choro.

    E Bruno, confesso que minha única hipocrisia ao longo destes posts todos foi a da omissão em uma série de opiniões que nem de perto concordo.

    De qualquer forma, acho saudável discutirmos isso. E Marcela, seu texto é bom, o que estou fazendo é para melhorarmos, não desanime. Não é porque não concordo com o que dizes que o que dizes não tenha valor, no fim das contas o que dissestes gerou reflexão sobre o assunto, e se quiseres permanecer na mesma idéias é um direito tão válido quanto de reconhecer que não havia pensado por esse outro lado.

    Sou apenas uma criança chorona, querem culpar meu choro ou os responsáveis por ele ?

    Não me levem a mal, adoro vocês, estou tentando apenas gerar reflexões menos superficiais, pelo que parece é mais fácil criticar aos outros do que a nós mesmos.

  4. santosmarcela
    março 23, 2010 às 21:59

    Não foi minha intenção parecer tão egoísta a ponto de ignorar a crueldade do casos que citei… Mas, se assim fui interpretada, não é algo que eu possa mudar.
    Verdade, Rodrigo, me abriste umas novas ideias, talvez até uma nova concepção.

    Ainda tenho uns conceitos preservados. De repente, como vcs mesmo disseram, eu não vejo algo de bom em protestos porque ainda não surgiu uma que me interesse… Não desses que quebram bens públicos e interditam ruas queimando, jogando lixo, sei lá.

    Entendi, entendi, seus dois textos me fizeram compreender muita coisa. Até confirmar que “Cada um tem sua dose de hipocrisia”… Acabei de descobrir a minha.

  5. rodrigonunesouza
    março 24, 2010 às 02:15

    Estou combatendo minha dose de hipocrisia que tem sido a omissão.

    Por isso estou falando o que penso sobre o que vocês tem pensado, infelizmente dessa vez não foi nada muito positivo, no entanto, é possível que um dia concordemos em algo.

    Eu ao contrário do Bruno Rosa, não concordo que preconceitos sejam naturais e cultiváveis. Acho sim que são hábitos negativos que devemos repensá-los a fim de nos tornarmos humanos mais humanos.

    Peço desculpa novamente por não concordar nem aplaudir tais opiniões. Muitos concordariam e as aplaudiriam.

  6. santosmarcela
    março 24, 2010 às 08:51

    Acho que não é preciso se desculpar por ter uma opinião diferente. Até porque, como disse, você me fez repensar. Isso é bom, Rodrigo…

  7. rodrigonunesouza
    março 24, 2010 às 12:29

    Que bom que você encara assim… Fico feliz.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: