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Entre a civilidade e a barbárie.

Civilização e barbárie, basicamente são termos históricos. Os que buscam a civilidade justamente são os que buscam o bem estar social, e a manutenção da paz. São conseqüências da civilidade, a ordem, a justiça, o poder do estado, a infra-estrutura, a educação, a ética e a moral.

O respeito, a objetividade, a condolência, a solidariedade, a compaixão, a amizade e o coleguismo, o companheirismo, a responsabilidade, o bom senso, o bom gosto, o espírito esportivo, a admiração pelas artes, o patriotismo, a espiritualidade, a sensibilidade, o saudosismo, a paciência, a erudição, o amor, a paixão e o limite do próximo, são todos naturalmente atributos que buscam em um cidadão civilizado.

Já a barbárie busca esnobar de todas essas palavras que poucos sabem a que sinônimos se referem.

No lugar do respeito o deboche, a avareza ao invés da condolência, tal como o egoísmo e o ódio no lugar da solidariedade e compaixão; Amizade substituída por relações de interesses, coleguismo por competitividade selvagem, companheirismo substituído por salve-se quem puder. A responsabilidade não tem vez na barbárie substituída pela omissão, o bom senso pelo senso comum ou desejo das maiorias; No lugar do bom gosto a adulação.

Não existe, entre os bárbaros, espírito esportivo, mas a necessidade de vencer sobre qualquer preço. A admiração pela arte é substituída pela anarquia estética, do mesmo modo que o patriotismo é fanatismo político, a espiritualidade vira fanatismo religioso, a sensibilidade se transforma em sadomasoquismo. Não há saudosismo entre os bárbaros, há traumas e quem pensa que entre a barbárie haja paciência, o que há é a sobrevivência da emergência. A erudição para um bárbaro equivale ao número de cicatrizes que leva na pele ou o número de abusos acumulados em seu corpo.

O amor, a compaixão e a paixão para o bárbaro não tem sequer significado, e não existe um entendimento do que diabos isso seja. Não há sequer antagonismo para tais, só ignorância e ausência. O próximo não tem limite, o que tem limite é o poder de cada bárbaro.
Não chegam a ser opostos, ou bastaria breves prefixos e não léxicos que diferenciasse barbárie de civilidade.

No entanto, a civilidade se vê corrompida pela barbárie e faz parecer mesmo uma utopia ou um teatro todas belas palavras que remetem a um sonho de vida pacífica e cordial. A civilidade está dominada pelo comportamento bárbaro, e por sentimentos que não compactuam com o discurso pronunciado pelos escritores do passado.

Estamos vivendo entre a barbárie e a civilidade, e pelo que parece a proporção de crescimento de uma sustenta a outra. Enquanto mais pessoas vivem civilizadamente suas vidas, mais a barbárie brota dentro de sua cidade, de seu bairro ou de sua própria família.
Os filhos rejeitam a educação dos pais, os alunos suspeitam dos métodos dos professores, as pessoas acham o modo do sistema funcionar duvidoso, sem se dar conta de que isso é um pensamento bárbaro.

Acham que o sucesso alheio é resultado de seu próprio fracasso, ou que as conquistas individuais são resultado da incapacidade do bárbaro de ser civilizado.

O bárbaro anseia o que ele não sabe o que é, anseia o poder no auge do seu limite, uma ditadura do seu ego. Quer possuir o mundo como se o mundo e as pessoas fossem bens seus. E não entende que querendo controlar os outros nem controla a si mesmo.

Acredita que as pessoas são manipuladas que existem poderosos que ditam os rumos do mundo, que os bilionários controlam o comportamento dos pobres; Como se a Paris Hilton controlasse as composições de Funk da Rocinha.

Mal sabem que sequer um pai civilizado consegue levar o filho distante de uma educação para a barbárie, e ao contrário do que todos os bárbaros pensam, existe gente honesta, trabalhadora e íntegra; Sabendo que mais perderá do que ganhará vantagens com isso, e sendo que essas vantagens só dizem respeito ao egocentrismo bárbaro.

O que interessa é que um bárbaro não entenderá uma linha do que digo, porque desconhece o sinônimo das palavras aqui mencionadas. Não entenderá porque alguém que não recebe escreve para as pessoas não lerem algo do gênero, e muito menos entenderá que é um bárbaro, já que o bárbaro se acha um especial, um predestinado, alguém melhor do que os outros mortais inferiores.

O bárbaro não entenderá que ele é um bárbaro como a maioria da barbárie. Ele se acha melhor do que os outros que são diferentes, e entre os que são os iguais acha-se ainda o superior. Acha que tem o direito(e nem sabe o que significa a palavra direito) de se julgar mais inteligente, mais culto, mais capaz, mais esperto, e até melhor de cama do que o próximo. Aliais para o bárbaro, não existe próximo, o que existe é o outro. O outro e o próximo, para o bárbaro podem significar inclusive a mesma coisa.

Vê o outro como um inimigo, um rival, um competidor e até mesmo um termômetro. E o civilizado, que vai ao longo do tempo se endurecendo de tanta barbárie quando não acaba cedendo, desistindo, se barbarizando, acaba por reconhecer, o quão inútil é sua conduta civil.
Mais é nesse desespero de constatação da inutilidade, que a civilidade repousa em sua resignação. Pois a inutilidade é que faz a maior das proezas. Porque muito difícil é ser inútil, quando tudo é nocivo.

A utilidade se trata apenas de uma arma nociva para exterminar a intuição humana, as artes, a honra, o amor, e os demais atributos, que não são uteis ou sequer existem. São metáforas, pensamentos simbólicos que referem a comportamentos humanos.

É senhor Bárbaro, você é melhor do que todos. É mais inteligente e está sempre certo e nunca vai errar. Se o bárbaro diz, que uma pedra é um pau, não adianta você insistir, que aquela pedra é uma pedra, pro bárbaro a pedra é um pau.

Tal como a pedra é um pau, eu sou um demente e o bárbaro é um esperto. O que eu aprendi com a barbárie de chamar de ESPERTO AO CONTRÁRIO; Aquele que atira a pedra e esconde a mão, aquele que esfaqueia sorrindo.

No fim, o homem civilizado tem a consciência pesada, e fica se culpando, já que só tem culpa quem tem responsabilidade, enquanto o bárbaro tem a consciência limpa; Nunca antes usada.

Pois é, eu convivo com a barbárie civilizadamente, esfrego em vossa cara a verdade e sei que isso não me faz melhor do que ela, apenas mais inútil do que ela e de certa forma menos nocivo.

O tempo passa, e a barbárie selvagem, acaba sendo substituída pela civilidade racional, pelos costumes melhorados, mas o atraso sempre fará parte dos futuros. O que podemos fazer? Rir, gargalhar, manifestar nossa chacota profunda dos seus discursos, dos seus preconceitos, do seu comportamento pueril, da sua falta de tato com as idéias, da sua profunda imbecilidade e fechamento em si mesmos.
Pois sim, devemos rir para que não nos tomemos por tristeza com seus comportamentos, para que não nos culpemos pelos que não possuem responsabilidade. Não me culpo, eu apenas dou risadas que são inúteis, e inofensivas.

Como quem não tem talento, não reconhece o talento alheio, mas sim costuma manifestar indiferença sobre tal, não espero nada senão a discórdia dos que chamo de bárbaros. Só espero que eles se tornem ainda mais bárbaros, e menos civilizados.

Por isso, nossa vida de civilizados será mais feliz, pois teremos mais alegrias para rir dessas caras, que se dão tanta importância, e que as vemos tão frágeis quanto nos vemos frágeis.
Um minuto de silêncio em homenagem aos bárbaros. (KKKKKKKK)

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  1. santosmarcela
    março 14, 2010 às 23:14

    Ainda vou assistir a Estamira do “Esperto ao contrário” =D
    Acho difícil encontrar um sujeito totalmente civilizado hoje em dia… Acho que temos um pouco dos dois…
    Muito bom! A melhor definição/descrição de barbárie que já li

  2. rodrigonunesouza
    março 15, 2010 às 14:48

    Este enunciado é de autoria de RUY BARBOSA em 1914:

    “A falta de justiça, Srs. Senadores, é o grande mal da nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria suprema desta pobre nação.

    A sua grande vergonha diante do estrangeiro, é aquilo que nos afasta os homens, os auxílios, os capitais.

    A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas.

    De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

    Essa foi a obra da República nos últimos anos. No outro regime (na Monarquia), o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam e que, acesa no alto (o Imperador, graças principalmente a deter o Poder Moderador), guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade”

  3. santosmarcela
    março 16, 2010 às 20:40

    Mas, culpar a injustiça pelo relaxamento do homem?

    É inacreditável a logevidade disso: “habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte”. Taí uma coisa que não sabia…

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