Jazz Belém.

(Graças à esse blog maluquinho, me convidaram pra ser colunista do Diário do Pará. Posto aqui em primeira mão a matéria que mandei ao editor pra inaugurar minha coluna, viva ao Defeito Colateral, que logo logo estará fazendo aninhos. GAFANHOTO cadê você meu filho?)

Ao longo dos quatro anos que estive em Belém fui com a proposta de montar um conjunto que tocasse Standards de música instrumental da maneira mais próxima à linhagem clássica. Muito do que eu escutava na noite eram versões em outros ritmos, como de eletrônico ou salsa. Muito levados ao ritmo, e eu preferencialmente como pianista, sempre gostei um pouco mais da harmonia.

Explico ao leitor que não esteja habituado com termos da nomenclatura de música popular contemporânea. Chamamos Harmonia a relação entre os acordes e a música. Chamamos por sua vez de acordes quando temos várias notas soando juntas. De tal forma, quando acabamos por implantar uma marcação rítmica muito forte, acabamos por passar pela harmonia dando menos atenção à ela.
Mas no fim das contas o que isso modifica à música instrumental, o jazz ou a bossa. Simples, quando temos uma harmonia mais definida por um ritmo tradicional, podemos aplicar solos que derivam de maior expressão. O que torna evidentemente a música menos dançante, já que é o ritmo que tem essa propriedade, mas sonoramente mais expressiva em seus sentimentos.

Isso não é uma regra geral, e sim um ponto de vista que muito pode ser discordado, já que existem mitos que se sagram com harmonias tão complexas, quanto possuem ritmos inovadores como o caso de Hermeto Pascoal.

No final dos anos 60 como a maioria dos músicos instrumentais estavam cansados de tocar os mesmos temas da mesma forma, e com o aparecimento de novos instrumentos vindos com a tecnologia eletrônica, surgiu uma vontade de misturar o jazz com outras tendências.

Com o passar dos anos, uma nostalgia ocupou minhas idéias. Cansei de sair pela noite querendo ouvir algo “cool” ou simplesmente uma bossinha amistosa. Mas geralmente escutava versões muito boas de rearranjos, mas não era exatamente o que eu buscava.
Um amigo que fiz em um dia em que fui procurar ouvir um som no antigo café imaginário foi Henrique Penna, baterista que integra muitos grupos de rock na cidade, proprietário de uma excelente hamburgueria onde podemos ouvir ótimos sons, na cidade velha.
Resolvemos então montar um grupo de estudo, para em seu estúdio de vídeo durante a noite quando em desuso de suas funções habituais pudéssemos reviver esse jazz tradicional, sem a responsabilidade formal de uma apresentação à mercê de vontades alheias que a nossa.

Nosso total amadorismo fez com que no final de um desses encontros, eu e meu amigo Henrique Penna fossemos assistir a um dos concertos que a Amazônia Jazz Band costuma dar no Teatro da Paz. Ali fui apresentado a dois nobres amigos, o senhor Jean Salgado e o saxofonista da orquestra Alexandre Pinheiro. Logo convidamos os dois para irmos ao estúdio brincar de improvisar em temas que todos conhecem no mundo inteiro.

Dentro de uma semana, Henrique quis experimentar os microfones novos adquiridos no estúdio, e sugeri que fizéssemos um vídeo para verificarmos como estava a tocada e que servisse de referencia para que procurássemos shows pela cidade.

Acontece, que se viver de arte já é uma grande aventura viver de jazz é praticamente uma insanidade. Mas ficou registrado no Youtube, com um considerável nome de visitas o concerto que demos para nós mesmos e para nosso amigo Marquinho(Atualmente dono do Estúdio Santo Antônio, cujo qual batizei em homenagem à rua do estúdio e à fazenda do meu avô localizada em Vassouras-RJ) que foi responsável por filmar todo o processo.

Aqui posto para os leitores do Diário do Pará, com imensa satisfação o resultado de nossas brincadeiras, que Henrique resolveu sem nos avisar publicar no Youtube com o nome de Jazz Belém. O engraçado é que não esperávamos ser no site tão visitados e com comentários de todo o mundo.

Um caso curioso que ocorreu graças à esses vídeos, foi o de um amigo meu contrabaixista que estudou comigo na oficina de férias de Itiberê Zwarg, ministrada na Pró-Arte nas Laranjeiras, foi que ele já conhecia os vídeos. E disse que queria aprender o tradicional tema “All of Me”, só que todas versões que encontrava eram mais puxadas pra outros ritmos. O mesmo caso que comentei logo na introdução deste texto, pois acabou ele reconhecendo nossa proposta e lá de sua terra natal Cintra, preferiu nosso vídeo para aprender à tocar a música.

Imensa foi a surpresa minha e a dele de saber que eu era o pianista do Jazz Belém e que ele tinha tido acesso à música instrumental paraense de além mar. Esses pequenos detalhes dão uma íntima realização ao artista, ao menos no meu caso, maior do que qualquer outra coisa.
Fica a recordação musical dos bons tempos que passei em Belém, e minha homenagem aos amigos aqui citados e, sobretudo aos leitores, que merecem ter contato com tão raro registro.

Espero que gostem e fiquem à vontade para trocar comentários, costumo responder todos que estiverem ao meu alcance.
— A Night in Tunisia.
— All of Me.
— Cantaloup Island.
– The Chicken.
– Meditação.

Até o próximo post.

Abraço a todos os amigos de Belém.

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  1. Marcela Santos
    março 2, 2010 às 22:10

    Parabéns por isso, Rodrigo!
    E adorei os vídeos. Dá vontade de treinar mais… Pena que eu toco muito meia-boca =(
    Ah! Coloca o link da sua coluna aqui, depois?

    Abraço.

  2. rodrigonunesouza
    março 3, 2010 às 00:57

    Eu ainda não fechei oficialmente, mas assim que fizer coloco sim… estou aguardando os detalhes, a promessa já me foi feita.
    Obrigado de qualquer forma.

  3. rafael
    março 3, 2010 às 00:58

    Muito bom o texto, de uma clareza muito grande
    tao suficiente em si.
    Mas meu vocábulo nao deixa eu me aprofundar na questao.
    gostei realmente do texto..

  4. rodrigonunesouza
    março 3, 2010 às 01:27

    Não está tão sinistro assim o texto.
    Escrevi para que leigos entendam, e você é musico querido Harry.

  5. rodrigonunesouza
    março 4, 2010 às 11:04

    http://www.diariodopara.com.br/colunas_lerv2.php?idcoluna=130

    Ai Marcela…meu primeiro texto no diário.

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