Início > Defeito Colateral, Velho Resmungão > Sobre e 7ª Bienal do Mercosul, sobre o problema de se ver boa arte e sobre artistas com nomes indigitáveis

Sobre e 7ª Bienal do Mercosul, sobre o problema de se ver boa arte e sobre artistas com nomes indigitáveis

Esse texto fala de arte, isso basta para que você pare por aqui, mas caso queria prosseguir, peço que tenha um pouco de paciência.

Então, fui à 7ª Bienal de Artes do Mercosul fazem três dias. Acho que depois de ter ido em três bienais, posso falar um pouco sobre o que vi, não? Acho muito complicado julgar bienais de arte por que, primeiramente, existe uma séria dificuldade em se distinguir o que tem lá dentro é arte ou não, e falo sério. Por exemplo … havia um andaime semi-montado em um dos salões … eu não sei se aquilo era uma obra de arte, principalmente com a terrível dificuldade que se tinha em identificar os artistas, já que para achar suas fichas com nome e data da obra era preciso estar acompanhado do Sr. Watson (elementar meu caro Watson). Em segundo lugar, a atitude que algumas pessoas tem quando entram em bienais é algo como “oh! Estou entrando no cúmulo do bom gosto e do que é, de fato, arte. Então tudo aqui é inquestionável e absolutamente verdadeiro”, e sabe … eu preciso dizer o quanto isso é errado? Se o que vi na bienal é arte do tipo mais pura … acho que a arte precisa de misturas.

Não quero entrar em discussões sobre “o que á arte ?”, apesar de eu achar uma resposta muito sedutora ( … arte é construir-se para fora de si, é construir um mundo que temos como nosso, e expô-lo aos outros.), mas acabaríamos discutindo horas e mais horas para abordar o mesmo assunto que é onde eu quero chegar.

Vi na bienal algumas coisas que me deixaram intrigados, e colocaram em dúvida a qualidade da bienal que, nas três vezes em que visitei, me plantaram uma semente que hoje já tem o tamanho de uma centenária. O que me deixou bem curioso foi uma folha A4 onde estava impresso “obra em manutenção” … vocês conseguem entender o que isso significa? A partir de um momento que EU artista decidi que terminei uma obra, existem meios de alguém, além de mim, repará-la? Digo … é como se um marceneiro tentasse colar vitrais … entendem? E o que entendemos como manutenção? Geralmente, algo que precise de manutenção é por que, ou teve um belo mau uso ou já está gasto, já foi usado durante um bom tempo. O que leva a outro ponto interessante da 7ª bienal: o número de obras interativas, onde as pessoas deviam experimentar, manusear para que elas acontecessem, nos leva a pensar um pouco no designer, onde você precisa criar um produto que tenha interação, que seja novo, que divirta … então temos até agora dois pontos negativos da bienal: falta de organização + confusão com o designer.

A 7ª Bienal está acontecendo em três lugares de Porto Alegre: Cais do Porto, MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) e no Santander Cultural. O cais, espero que vocês não visitem e se visitarem eu juro que vocês vão se arrepender. O Santander Cultural tem só vídeo-arte e nada mais, e nisso temos um ponto positivo da bienal: todas as obras apresentadas ali chegaram via internet, ou seja, houve uma interação e questionamento sobre a internet e a arte que, de um ponto de vista contemporâneo, é realmente bem interessante. No MARGS começa a salvação da tarde, ali estão algumas obras que prestam, que tem valor estético e são questionáveis, indagam o espectador. Principalmente nas salas laterais, onde estão algumas gravuras de artistas importantes brasileiros, muitos até gaúchos, só não sei se as salas em questão tem alguma conexão com a Bienal .. mas enfim … O segundo andar do MARGS tem o seu valor, o primeiro andar eu acho que foi feito pelas mesmas crianças que estavam lá quando visitei, e as obras presentes tem tanto valor para mim quanto o papel higiênico depois que eu usei.

Querem uma dica? Uma de verdade? Visitem a Casa de Cultura Mario Quintana, que não tem nada a ver com a bienal, mas em compensação está apresentando duas exposições das melhores que vi na mesma tarde. Uma de um fotógrafo, dono das fotos que vocês verão logo abaixo, e uma exposição do Xico Stockinger, dono de escultoras encantadoras, que carregam um sentimento que beira o sublime, simplesmente indescritível.

Dedicando um parágrafo a quem merece, preciso dar ênfase a quem mais me chamou atenção na mesma tarde. Um fotógrafo de nome muuuuuito estranho, confiram o nome na galeria, e dou um doce para quem souber pronunciar e como digitar o nome dele no Google, que é, com toda certeza, um dos melhores fotógrafos do qual tive o prazer de presenciar suas obras. Uma exposição de fotografias tiradas entre 1960 e 2000, em vários vilarejos da Morávia. Posso lhes garantir que a arte desse querido é algo simplesmente inquestionável, um dos poucos do ramo que sabem apontar uma lente para um lugar e imortalizar o que quer que seja. Um dos problemas da fotografia hoje em dia, é a regra contemporânea de que “todos vemos o mundo com olhos diferentes”, então os fotógrafos hoje se resumem a tirar fotos de cantos de paredes e cocos no chão, basta estar enquadrado, se for preto-e-branco então … supra-sumo. Esse amigo donos das fotos, chega a um vilarejo e capta o cotidiano de pessoas comuns … mas aonde vejo diferença disso com tantos outros que já fizeram o mesmo? Veja o resultado de seu trabalho, e tire suas conclusões. Ele faz mágica com uma câmera fotográfica, seus trabalhos se atiram sobre nossos olhos, nos demonstram como podem ser alegres as pessoas que vivem em um País desconhecido, morando em casas construídas à séculos, em vilarejos que parecem ter parado no tempo, que nos transmitem frio. Pessoas que não sabem posar para fotos, que não saberiam coreografar o que fazem nas fotos. Isso é a vida dela, elas são assim, e temos a prova disso. Basta olhar as fotos, é visível a alegria, a comodidade, a normalidade de tudo, enquanto tudo é contrário ao que nos ensinam ser “felicidade”. Suas musas e modelos são muitas vezes pessoas velhas, são momentos típicos e anormais. Eu passaria dias aqui descrevendo fotografia por fotografia, mas não tenho tempo, e ainda preciso me desculpar pela péssima qualidade das fotos, foram tiradas do meu celular, mas vocês vão conseguir entender sem maiores problemas o que está exposto na casa de cultura. Aos que querem mais informações sobre o fotógrafo basta tirar os acentos em cima das letras e jogar no Google, aos que querem que eu me cale: só mais um minuto.

Não visitem o Cais do Porto em época de Bienal, vocês estarão fazendo um mal a seus olhos, estarão infringindo dor à sua inteligência pois … sério, ir em bienais te deixa burro, pois é natural você tentar entender o que tu vê, e se tem alguma coisa que adoram colocar em bienais, são coisas que te fazem pensar “What the fuck?”.

Anúncios
  1. Kevin
    novembro 2, 2009 às 09:02

    Depois que tu le sobre a história da Jugoslavia (sim eu escrevo com J porque eu prefiro assim, afinal o J tem som de I), consegue ler qualquer nome no mundo, Jindrich Streit é barbada perto de Slobodan Milosevic, Drimatovic, Brno, Srna, ou ainda Hrv (o que seria gravata em croata. e Bienal nunca foi la essas coisas mesmo, mas amei as fotos do Streit :D

  2. novembro 4, 2009 às 23:15

    Cara.hoje mesmo fui no CCMQ.como quem nao quer nada,e gostei das mesmas coisas que tu disse ai,e ainda tinha dito pra Mari que escultura e fotografia nao me desse,bah,calei minha boca.ueheuheuheuhee assino embaixo esse post!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: