Mentira

Ela mesmo, o diabo que assombra o coração dos puros de alma.

Não vou falar aqui sobre a importância de se mentir ou sobre como a falta da verdade nos é, muitas vezes, extremamente natural. Isso é óbvio. Percebam, mentir nos acontece com quase tanta frequência quanto respirar. A verdade é que, aos lábios de todos, soa tão ofensiva e estranha que causa um certo arrepio toda vez que é dita. Ou pelo menos no caso de vocês é assim.

O curioso mesmo é que qualquer mentira é, de algum modo, uma verdade. A sombra criada quando a mentira é contada pode ser sentida. Está lá, na sua cabeça. Presente. É assim que nascem as histórias. É assim que elas mudam. E do mesmo modo, mudam ideais e convicções.

E pode-se dizer que essa “sombra” é inclusive real. Quer dizer, o que diabo pode ser “de verdade” se você disser que o que tá DENTRO da sua cabeça não existe? E é aí que tá meu ponto: uma mentira bem contada faz nascer uma sombra na sua cabeça. Como uma semente no seu vasto campo de imaginação. É uma possibilidade não concretizada, uma verdade fantasma. Mas que tá lá, tremendo as correntes e dizendo um “bu” ocasional, pra te mostrar que ela existe.

Mentir, portanto, é mais do que parece. Um mentiroso é um criador, um artista. Pode ser um deus, até. Por que não? Tudo depende, apenas, do quanto você é capaz de fazer a sua criação durar. Dou-lhes um exemplo:

Em 1943, na California, um homem de trinta e poucos anos contou a todos na vizinhança que era filho de emissários do outro mundo, e que tinha vindo buscar um seleto grupo de pessoas para uma peregrinação, pois se fazia necessária a fundação de uma embaixada dos vivos e de uma escola de teatro, visto que os mortos perdem sua capacidade de representar, no Além. Como o Além vive de sombras e memórias, a mentira teria, portanto, um efeito muito mais sólido por aquelas bandas, o que fazia bastante sentido.

Talvez o homem devesse ter fundado também uma escola de Direito, sei lá. O importante é que, naquele ano, vinte e oito jovens participaram de um suicídio coletivo graças ao homem. O mais incrível? Alguns dos parentes entrevistados acreditam até hoje que eles simplesmente… cruzaram pro além. Pra fundar uma embaixada.

E eu lhes pergunto: Que mal há nisso?

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  1. rodrigonunesouza
    outubro 26, 2009 às 14:41

    “Ou há de se viver no munco com a verdade ou com a verdade sem mundo”, como nos diria o nobre poeta camões.
    Repare, a mentira pode ainda ser separada em mais áreas. O conceito de mentira, se opõe óbviamente ao de verdade,mas temos de admitir, que uma verdade pode muitas vezes ser também mentirosa, basta aludir ao caso de que é verdade que o brasil investe bilhões em educação todo ano.
    No entanto, tudo são argumentos.

    Eis a questão que paira, o nosso uso vulgar do idioma não transforma o valor das palavras ?

    Veja bem, existe cientificamente árvore ? Segundo Umberto Eco em seu Tratado Geral de Semiótica, ele diz que cientificamente não existe o termo árvore, mas isso é um signo que representa um específico grupo de vegetais, e ainda dá exemplos claros de animais que nosso linguajar vulgar classifica como legítimos, o Porquinho-da-india e o tubarão-baleia não são cientificamente o que seus nomes indicam.

    Mesmo assim verdade é relativa, mas é também absoluta.
    Logo,
    A mentira é também relativa, mas é também absoluta.

    Faltar destrinchar… acho que vou escrever meu próximo texto sobre essas máximas, obrigado pela sugestão. Gostei do texto.

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