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Diálogo de moribundos, ou: um capítulo não desenhado de John Constantine

Eram quase três da manha naquela noite que nevava calmo. O farol do carro encontrava algumas árvores ladeira abaixo, enquanto o capô, destruído, parecia ter se juntado à árvore na qual batera. O cheiro dos pinheiros se misturava com o cheiro úmido e frio da neve, que estava com trinta centímetros de altura naquela região. Dentro do carro, uma mulher ao volante, com a cabeça parecendo um emaranhado de sangue e cabelo, alguns dentes espalhados pelo seu colo e no parabrisa. Se aproximava do carro, descendo uma pequena parte da ladeira, em passos calmos, resmungando sobre a neve, uma silhueta alta, com dois olhos verdes cintilantes. Acendendo um cigarro, ele sentou no capô e tragou profundamente:
– Eu disse para você que não daria certo, por que tanta teimosia?
O corpo permaneceu imóvel, morto.
– Sabe … eu tenho andado tão emotivo ultimamente – deu outra tragada no cigarro – me parece que estou carregando tantos segredos, um fardo tão pesado, cheio de histórias que ninguém deve saber. Vou aproveitar que você está para morrer e vou aliviar um pouco meu stress.
A cabeça pareceu ter um ataque nervoso, e se mexeu repentinamente, para logo depois voltar a ficar imóvel.
– Minha mãe tentou me criar sozinho sabia? Quando eu tinha completado oito anos, e ela estava no auge se achando uma mulher independente, orgulhosa de criar uma criança sem um marido, ela se apaixonou por um babaca que, logo depois de levá-la para a cama, a largou como lixo, para os ratos comerem os restos. Bom … mamãe se sentiu só e amargurada, e viu o remédio para o seu sofrimento no cano de um revólver.
Deu outra tragada no cigarro, ajeitou a gola do casaco de couro e se virou para o cadáver:
– Estamos tão sós aqui, vamos colocar uma música.
O homem quebrou o vidro do parabrisa com a coronha de uma pistola e ligou o rádio, onde os Beatles começavam a cantar “Lucy in the Sky with Diamonds”:
– Então … bom, eu fui parar em um orfanato, de onde eu fugi três meses depois. Aquele lugar era muito pior do que a prisão onde fui parar alguns anos depois, mas vamos chegar nessa parte daqui a pouco. Bom, como um garoto de rua, comi restos de lixeiras durante oito meses, e completei nove anos me aninhando em uns trapos velhos, ao redor de um tonel que queimava jornais e algumas madeiras secas que eu e outros mendigos achávamos. Bom, menos de dois meses se passaram e duas freiras vieram me juntar da rua. Me levaram para um convento, onde fui criado como um ser humano temente a Deus, onde rezava todos os dias antes de dormir e onde fui educado.
O corpo balbuciou, se sacudiu rapidamente e se encostou no banco, estirado. O rosto estava deformado, no lugar de um olho havia um buraco, que sangrava lentamente, o maxilar deslocado e sem nenhum dente na boca aberta.
– Um padre, de quem me tornei amigo, me ensinou boa parte do que sei sobre vocês. Me tornou um homem de conhecimento, um estudioso. O problema é que subestimei os poderes de sua raça, e quando me senti forte o bastante para enfrentar um de vocês, um demônio sujo me possuiu, e me fez trucidar toda a igreja, me fez rasgar a carne de cada freira com meus dentes, e me fez oferecer o sangue de meu mestre ao teu chefe. Graças a isso, fui preso no dia seguinte, mas minha estadia foi curta, mais curta do que o orfanato. Em uma tarde de verão, o vaticano mandou dois representantes na prisão, e naquela mesma tarde eu já havia sido avisado sobre o meu novo objetivo de vida. Sabe de uma coisa? Com os templários aprendi a não ter medo de vocês, e aprendi que vocês não são capazes de me matar.
O corpo se lançou para frente, pelo buraco do parabrisa, e agarrou o homem pelo braço, com uma força descomunal:
– Impressionante. Ainda tem força para mover este corpo morto? Estou terminando com algo mais forte do que eu pensava. Me sinto orgulhoso, e agora bem mais leve.
O homem agarrou o corpo pelo pescoço, viscoso de sangue, com uma boca aberta, de onde saía um cheiro pútrido. O pescoço começou a queimar, a fumaça de carne chamuscada começou a se confundir com a neblina que tinha recém começado:
– Volte e avise seu chefe que eu estou esperando ele criar coragem para vir me pegar.
O corpo sem cabeça despencou no banco, enquanto o homem tirava uma pequena garrafa de dentro do casaco.
Os Beatles terminavam de cantar entre o fogo que consumia todo o carro, até o homem ver, já na beira da estrada, o carro explodir em um cogumelo de fumaça que significava mais um trabalho bem feito.

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