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Da Prostituição (e do sentido da vida)

Outro dia ouvi duas velhas a comentar sobre a vida alheia. Uma contava sobre uma certa moça, filha de pais ricos, que fingia fazer faculdade para se prostituir. Outra falava sobre um certo michê que vivia na praia do Rio de Janeiro, tendo sua vida inteira custeada pela venda de seu corpo.

“Mas eu fico me perguntando”, ponderava uma das velhas, “se isso é mesmo vida. Ele dizia que gostava, porque tinha dinheiro pra sair e se divertir, e as clientes levavam ele pra conhecer os melhores lugares, as melhores festas e os motéis mais caros. Mas isso por acaso é vida?”

Acho do caralho como conseguem demonizar a prostituição por séculos e, ao mesmo tempo, exaltar certas outras profissões. Vejam vocês que uma meretriz é nada mais que uma mercadora, uma performista. Como um músico, ela compartilha de suas habilidades em troca de dinheiro. Como o dono de uma casa de aluguel, ela permite que outros desfrutem da mercadoria em troca de dinheiro. Que caralhos tem de demoníaco nisso?

…ah, o sexo.

Acontece que por anos e anos e anos se disse que o sexo é a ação de Satanás na terra através dos corpos humanos. E as pessoas, burras pra caralho, ouviram. Percebam que o sexo é, em primeiro lugar, prazeroso, agradável. A ponto de – se por um acaso não fosse um pecado mortal que te levaria ao fundo do pior poço do inferno – ser uma opção extremamente viável pra se passar o tempo com outra pessoa desejável. Em segundo lugar, ele é necessário. Você faz idéia de quantas pessoas tiveram que trepar só pra que você tivesse a chance de estar aqui me enchendo o saco, por exemplo?

Claro, se o sexo é assim tão maravlhoso, quais são os problemas?

“Me digam vocês”, eu deveria dizer. Mas não.

Em primeiro lugar, eu gostaria de falar sobre o conceito de Miasma, bem comum na grécia antiga. Pra resumir a bagaça, diziam as pessoas que aquele que comete qualquer ato ruim fica “contaminado” pelo mal. E ao se misturar com pessoas contaminadas com o mal, homens de bem também se contaminariam. Por isso, deveria ser evitado ao máximo o contato com impedosos cometedores de sacrilégios, e, quando algum malfeitor fosse detectado, este deveria ser levado imediatamente à Justiça, pois apenas através dela o mal poderia ser purificado. Soa familiar? Não? A idéia de limpar a contaminação (ou sujeira, ou pecado, como preferir) com castigos? Não acho que seja complicado ver como associam isso à história do sexo – até porque muita gente vê o próprio sexo como pecado por excelência. E pra reforçar a viagem torta de vocês, não há evidências visíveis do mal se espalhando através do sexo? AIDS, gonorréia, cancro mole e todas essas coisas são o miasma de satã se espalhando através do pecado carnal… certo?

Outro ponto importante a se citar é a relação extremamente tortuosa que se faz entre sexo e amor. Percebam, meus caros, que ninguém ama tudo aquilo que quer foder. Você não ama a sua vizinha gostosa, seu cachorro não ama a cadela da sua tia, o governo não ama nenhum de nós, seu pai não amava a sua mãe e por aí vai. Agora, claro, a pobre garota trocar sexo por dinheiro? Isso não. Sexo só com o marido, é claro.

Mas o que realmente me incomoda em toda essa pentelhice de velha é a idéia de “vida”. Tá certo, o cara talvez tenha que ter dado o furico algumas vezes em troca de uma grana, mas, sinceramente? Foda-se. O furo é dele, e talvez ele até goste. O ponto é que o tal michê, pelo que foi contado, aparentemente leva uma vida até que bem feliz.

…do outro lado, a gente tem uma velha que passa a tarde tomando o tempo da aula de inglês dos outros pra fofocar sobre a vida de desconhecidos porque a própria não tem graça nenhuma. E aí eu me pergunto: isso por acaso é vida?

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