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Dos Privilégios

Homem entra no bar. Se senta. Pede cervejas. Bebe. Não conversa. Não se diverte. Volta pra casa. Dorme. Noite ruim. É a vida.

Homem entra no bar. Carregado. Cadeira de rodas não permite subir o meio-fio ou o degrau da entrada. Permanece sentado. Pede cervejas. Bebe. Não conversa. Não se diverte. Volta pra casa. Dorme. Noite ruim. Injustiça. Preconceito. Morte. Apocalipse.

Era de se esperar, no fim das contas, que ao estender a mão, queiram lhe arrancar o braço. Talvez seja da natureza humana. Talvez seja o único modo que alguns aleijados* encontraram pra descontar suas frustrações. Talvez a idéia de justiça e igualdade que corre na cabeça das pessoas também seja meio aleijada. É talvez pra caralho.

O que acontece é que existe muita gente escrota. Escrota o bastante pra achar que o mundo precisa dar-lhes um prêmio de consolação, ou, talvez, até uma recompensa.

Quer dizer, por um lado tem todo aquele papo altamente filosófico em prol de todo grupo de minorias. Às vezes nem tão minoria assim, no fim das contas. O ponto é, qual a razão de se criarem leis e regras e programas de apoio às pessoas especiais (me refiro a pretos, aleijados, bichas, mulheres, retardados, putas, corinthianos ou a escrotice que vocês quiserem inventar que é uma pobre minoria), se vossa tão iluminada idéia é buscar a igualdade?

“Ó, implacável escritor”, vocês me dizem então, com suas vozes débeis, “mas o que deveria acontecer então ao pobre pretinho que é constante vítima de agressões brutais?”

Não sei se isso é um problema pra vocês, mas acontece que agressões brutais, por si só e independente da casta da vítima, é uma porra dum crime. Se você agride um branco, um amarelo, um corno, um político ou uma bichona, tu vai preso do mermo jeito, cacete! Ou, pelo menos, em teoria.

Mas isso, claro, é ignorável. Criar uma lei que pune aqueles que agridem retardados não faria diferença alguma. Agressores em geral seriam, em teoria, punidos. Nada se perde, daí.

Nosso pequeno problema começa, na verdade, com uma constatação que possivelmente soa um pouco estranha: querem me tirar o direito de ser racista!

Claro. É possível que vosso primeiro pensamento seja “que tipo de vilão exigiria tal direito?”. Em absoluto, o ponto não consiste no exemplo propriamente dito, mas em todos os postulados necessários pra que esse direito seja negado a alguém. Vamos por partes.

Em primeiro lugar, deve-se distorcer a idéia de igualdade. Me proibir de odiar australianos, por exemplo, é me obrigar a ser amável com eles. Afinal, se uma imagem social aceitável diante deles não for mantida, automaticamente me torno um odiador criminoso filho da puta.

A segunda implicação é ainda mais terrível: deve-se aceitar que o Estado possui soberania sobre os pensamentos de seus cidadãos. Ou sobre a expressão deles, o que, até certo grau, dá no mesmo. Ou seja, um conjunto de leis decide o que eu não devo pensar. O que é, essencialmente, aceitar que é possível ao estado decidir o que eu devo pensar – resultado obtido pelo simples processo de me ser negado pensar em qualquer coisa que não se queira que eu pense. Lá se vai a liberdade de expressão. Matar a liberdade de expressão é o mais perto que se pode chegar de ferir a liberdade de pensamento.

A idéia de querer poder pensar o Mal ainda pode soar repugnante, mas o conceito de Mal depende de muita coisa – inclusive da cultura, dos valores que o próprio estado nos passou a vida inteira.

A idéia de se criar a obrigação – mesmo que maquiada – de se amar um grupo de pessoas soa absurda vista de qualquer um dos lados. Um cidadão-de-pernas-e-braços-completamente-funcionais não se sentiria nada bem ao ter que ser cordial com algum portador de necessidades locomotivas especiais que seja escroto; e um aleijado, por sua vez, certamente se sentiria deslocado ao saber que as pessoas à sua volta o tratam bem por mera obrigação.

Ao que parece, manter as Roupas do Mundo limpas e na moda é mais importante do que manter a verdade correndo nas suas veias e oleodutos.

Que eu morra um escroto pra vocês e seus Direitos Andróides, mas o que eu faço, faço porque gosto.

* Todas as palavras que nomeiam qualquer classe de seres humanos nesse texto podem ser substituídas de acordo com o gosto e a vontade do leitor. Divirtam-se.

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Categorias:Velho Resmungão
  1. Nuno Rosa
    maio 7, 2009 às 11:55

    com toda certeza o melhor texto publicado nesse blog até então …

    afinal de contas? desde quando é crime odiar alguma coisa?

  2. Lucas
    junho 15, 2009 às 01:29

    opinião é opinião, valores são valores.
    i agree.

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