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O pensamento crítico e sua interpretação.

Freqüentemente encontra-se em Paulo Freire o termo pensar certo. O pensar certo que emana uma estratégia crítica de pensamento, um pensamento autônomo, livre, e consciente: “Como manifestação presente à experiência vital, a curiosidade humana vem sendo histórica e socialmente construída e reconstruída. Precisamente porque a promoção da ingenuidade para a criticidade não se dá automaticamente, uma das tarefas precípuas da prática educativo-progressista é exatamente o desenvolvimento da curiosidade crítica, insatisfeita, indócil. Curiosidade com que podemos nos defender de “irracionalismos” decorrentes do ou produzidos por certo excesso de “racionalidade” de nosso tempo altamente tecnológizado. E não vai nesta consideração nenhuma arrancada falsamente humanista de negação da tecnologia e da ciência. Pelo contrário é consideração de quem, de um lado, não diviniza a tecnologia, mas, de outro, não a diaboliza. De quem a olha ou mesmo a espreita de forma criticamente curiosa.” (Freire 1996; p. 32) Bem, o pensamento certo, segundo a ótica freiriana, é um pensamento que demanda reflexão. Curiosidade. Se aliarmos o estudo das máximas, como um estudo de como o pensamento da humanidade se construiu ao longo do tempo, e nem sempre buscarmos nas máximas as verdades que podem trazer(buscamos muito mais as falsas verdades muito mais), mas buscarmos através dela pensar e refletir sobre determinado tema. Pois com a máxima, temos a mais pura reflexão. Se encararmos as máximas, como um fenômeno fechado e verdadeiro, cometemos este pecado para com o pensamento crítico. Quando reconhecendo mecanismos, tentamos inverter as possibilidades de alcance de uma máxima, podemos não apenas ponderar o valor humano da qual é carregada a sentença, mas, sobretudo exercitar a autonomia de escolher no que se acredita, e não simplesmente se render a brilhantismos estéticos. Quando ouvimos um discurso político, dizendo um aforismo cancrizável, podemos perceber que se ele é verdadeiro, é apenas em uma parte. Quando um slogan publicitário parece algo de mais profundo e verdadeiro, a mínima reflexão que cancrizar a sentença reconhecerá uma falácia bem elaborada. A vida exige as vezes que interpretemos situações, já que defendendo nossa autonomia, defendemos nossos direitos. É fácil dizer que devemos interpretar, o mais difícil talvez seja como faze-lo, sobre isso Fiorin se posiciona de maneira clara: “A escola ensina os alunos a ler e a escrever orações e períodos e exige que interpretem e redijam textos. Algumas pessoas poderiam dizer que essa afirmação não é verdadeira, porque hoje todos os professores dão aulas de redação e de interpretação de textos. Mas como é uma aula de redação? O professor põe um tema na lousa, pede que os alunos escrevam sobre ele, corrige os erros localizados na frase. A aula de interpretação de texto consiste em responder a um questionário com perguntas que não representam nenhum desafio intelectual ao aluno e que não contribuem para o entendimento global do texto. Muitas vezes, o professor não se satisfaz com os textos e os roteiros de interpretação dos livros didáticos, seleciona algum texto e faz uma bela interpretação em classe. Se o aluno lhe pergunta como enxergar numa produção discursiva as coisas geniais que ele nela percebeu, costuma apresentar duas respostas: para analisar um texto, é preciso ter sensibilidade; para descobrir os sentidos do texto, é necessário lê-lo uma, duas, três, inúmeras vezes. As duas respostas estão eivadas de ingenuidade. Não basta recomendar que o aluno leia atentamente o texto, muitas vezes, é preciso mostrar o que se deve observar nele. A sensibilidade não é um dom inato, mas algo que se cultiva e se desenvolve.” (Fiorin, 2008. p. 9) Quais então seriam os pontos importantes a serem mostrados na escola ? as verdades acabadas ? ou a reflexão crítica em cima delas ? se aceitamos sem crítica alguma argumentos históricos, sofremos a conseqüência de nos tornarmos presos a uma ideologia, que muitas vezes não condiz com nossa ideologia. Deste modo, quando pensamos em escolher frases vitais que ilustram nossas sociedade, e através dela partirmos para exemplificações, críticas, contra-argumentações, exercitamos assim o maior dos defeitos do brasileiro, uma herança do analfabetismo funcional que cultivamos ao redor da história. Freyre[3](2006) comenta acerca da formação histórica do povo brasileiro. Em uma de suas passagens levanta uma visão que representa a origem histórica de nossa educação, e os mecanismos aos quais subordinadas. Descreve Freyre que não há uma questão de reflexão nacional, mas um modelo sádico que apenas representava institucionalmente a escravidão. As crianças sofriam violências físicas se tentassem por exemplo, inverter uma máxima de Santo Agostinho. Em Hollanda[4]é evidente que no pensamento do autor, uma herança medieval ibérica, herança que não vê no sacrifício do trabalho a legitimidade da moral, mas na facilidade da aristocracia, a verdadeira fonte da virtude. De tal forma, comparando o que foi lido em Raízes do Brasil, com a situação aqui discutida, podemos retirar que essa tradição ainda permanece em grande parte como uma característica do povo brasileiro. A forma aqui, vale mais que o conteúdo, a aparência muito mais do que a essência, o ato do que o espírito. Assim o dever de uma máxima, no que podemos interpretar dos dois importantes homens que trataram de nossa história, é que as máximas são exigidas mais como um intrumento de imposição do que de reflexão crítica. Se estamos aviltados a essa obediência baseada na tradição da força física, não poderemos nos espantar com resultados catastróficos de nossa educação. Há um elo muito estreito entre sociedade e educação, como confirma Rios[5] “Para falar da educação enquanto fenômeno histórico e social, é preciso que se percorra brevemente o caminho de uma reflexão sobre a cultura, na medida em que se pode afirmar – recorrendo-se a uma definição extremamente abrangente- que educação é transmissão de cultura. (…) “A cultura pode ser definida, em primeira instância, como mundo transformado pelos homens. Se vamos partir daí, é preciso fazer referência às relações dos homens com essa realidade que os cerca e da qual eles fazem parte e que se chama mundo.” (Rios; 30) E mais adiante, ainda sobre o mesmo tema: “A relação escola-sociedade deve ser analisada de modo crítico, para que se evidenciem os mecanismos determinantes da prática educativa. A análise crítica nos levará a constatar a existência de posições diferentes no que diz respeito àquela relação.” (Rios 36,37) Até concluir: “Uma vez que a escola não tem sido nem eficiente nem eficaz, é necessário refletir para que se encontrem caminhos para sua transformação. Um deles é a visão crítica do educador sobre seu papel enquanto um dos elementos que constituem o processo educativo. O que se espera, então, do educador ? o que lhe compete, na construção da escola e da sociedade? quais são os traços distintivos da sua competência enquanto profissional da educação? Para responder a estas questões é preciso recorrer à reflexão filosófica, destacando no trabalho dos educadores a dimensão ética como instância de resgate da compreensão do significado político de sua ação.” (Rios; 44) Rios, então nos indica que sem essa visão crítica, de toda a sociedade não poderemos de maneira alguma exercer, uma educação de qualidade. As máximas, aforismo e paradoxos, podem ser um como resolver esse problema, já que vão estar trabalhando com tudo aquilo que foi posto como o grande problema do ensino, ou o problema pai de todos os outros problemas. A não proficiência interpretativa e crítica da língua. FREIRE, Paulo; Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à pratica educativa- São Paulo : Paz e Terra, 1996. FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. 14. ed. , 1ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2008. FREYRE, Gilberto; Casa Grande & Senzala: Formação da família brasileira sobre o regime da economia patriarcal-51ª ed. rev. – São Paulo: Global, 2006. [4] HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil- 26. ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995. [5]RIOS, Terezinha Azerêdo. Ética e competência. 16. ed – São Paulo, Cortez, 2006.- (Coleção Questões da Nossa Época; v.16)

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