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Nenhum de nós é livre.

Entre a multidão de corpos girando enfurecidos, sua fúria primata é liberada. O som dos urros se espalha do palco à multidão, e da multidão à sua mente. Ali, no mar de seres viventes em choque, ele é um deus dourado. Se debater contra a massa metamórfica de homens sem face é a expressão máxima de sua alma. A cicatriz na careca é um símbolo sagrado – a prova de que há vida pulsando nesse aglomerado de ossos e carne.

Ao amanhecer, com as guitarras silenciadas e os golpes na bateria cessados, a multidão se dispersa quieta como a neblina da manhã. Sozinho naquele deserto inclemente, ele se dá conta de que seu dia de glória chegou ao fim. Agora, por mais uma semana, ele é apenas um professor.

***

Ainda seguindo pela estrada – descalça, como prefere -, ela se dá conta de como são belas as coisas e as criaturas, e a consciência de que Deus as fez a faz perceber Sua Imensa Bondade. De fato, ela, assim como todos nós, é tão abençoada e amada que pode fazer o que quiser. Qualquer estrada pode ser seguida, qualquer fruto devorado, qualquer palavra proferida. Em meio à vista majestosa do cerrado, ela regojiza.

Mais quinze minutos e seus pés cansados finalmente tocam o solo daquela pequena igreja. Sua saia – e não bermuda, como preferiria – não mais se agita ao vento e o livro sagrado agora está em mãos. Durante as próximas horas, ela se ajoelhará e repetirá frases que não sabe se quer, enquanto ouve o padre dizer tudo o que ela deve e tudo o que não pode fazer.

***

Voando sobre as nuvens de protoplasma pulsante, ele sabe que só assim está à vontade, mais do que de qualquer outro modo. Mais do que o mundo o permitiria. Sua mente se expande além-corpo, e o próprio universo e tudo o que nele está se liberta da não-anunciada ditadura das formas. As barras de aço de sua janela se tornam círculos, e o sol se torna uma ponte, e tudo passa da sua condição de ser para o livre devir. Assim como o universo, ele é Livre.

Finda-se o efeito e acabam-se as pílulas. Por horas e horas e horas, estivera preso dentro de sua própria cabeça. Agora, por dias, ele se vê preso em um mundo que, no fim das contas, nunca tentou realmente compreender, mas que de algum modo parece hostil e inescapável o suficiente para sua antiga prisão parecer um prêmio mais uma vez.

***

Não sei se te contaram, amigo, mas fora dessas paredes todos são completamente pirados. Quer dizer, você com certeza viu os uniformes de todos. E como eles transformam o inútil em desejado usando uma caixa com luzes, hein?

Talvez te pareça completamente normal, mas acontece que me dói o cérebro quando eu tento entender como isso vem a ser. Acontece que primeiro as pessoas dentro da caixa fingem imitar as pessoas de fora, mas seguem seus impulsos alienígenas e injetam padrões anti-naturais em tudo o que se passa ali. Então, as pessoas de fora da caixa observam as de dentro, quase como se não soubessem que aquilo são imitações. E, de repente, as pessoas de fora assimilam os padrões dos Filhos da Caixa. E então valores completamente alienígenas foram injetados em nossa sociedade. Como veneno. Cianureto numa caixa brilhante, nos levando a uma morte lenta e anestesiada.

Quer dizer, como alguém pode negar a minha razão, no fim das contas? Você primeiro tenta se esconder deles. Nada mais natural. Aí te dizem que você é maluco, paranóico, o que for. Que é tudo coisa da sua cabeça, que nada disso é verdade e que ninguém vai te fazer nada. Aí depois te enfiam numa camisa de força, te jogam num caminhão e você vai preso até admitir que ninguém queria te pegar? Puta que o pariu!

***

Senhoras e senhores! Damas e cavalheiros! Cidadãos, conterrâneos, irmãos! Respeitável público! Venho lembrar a todos que nós adoramos a liberdade acima de todas as coisas! Infelizmente, o Terror se alastra pelo globo, e não há liberdade onde há o terror. Pois acontece, excelentíssimos senhores, que o Purgatório e o Inferno entraram em guerra. E é por isso que nós, do Reino dos Céus, marcharemos até lá com nossos rifles de assalto e nossos caças F-22 e mostraremos àqueles filhos da puta quem é que manda! Viva a liberdade!

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