Violência

Violência. Acho que durante toda a história da humanidade, houveram centenas de significados para a mesma palavra. Durante a era primitiva, quando viviamos em cavernas, desenhávamos em rochedos e carregavamos as mulheres pelos cabelos, violência era sinônimo de sobrevivência (cabras macho!). Durante a idade média, demonstrações de violência eram provas de força, e um pouco antes desse tempo existia até um local onde as pessoas iam para ver violência. Ou seja, nesse mundo em que vivemos, violência já foi motivo tanto de espanto quanto diversão.

se fudeu!

se fudeu!

Não quero levantar questões grandiosas, não vou começar um assunto para dividí-lo em mil partes, por isso não vamos nos perguntar “o ser humano …. é essencialmente ruim ou essencialmente bom?”, vamos nos acalmar, aquetar nossos rabos … e manteremos uma linha de pensamento simples: o que é a violência?
O problema de tratar assuntos que começam com “o que é tal coisa?” é que acabamos sempre partindo de um ponto pessoal, levando em conta apenas nossas experiências próprias e opniões. Se perguntarmos para um ex-preso político o que ele acha mais violento, ele vai escolher a foto dos brigadianos descendo o cacete em um qualquer, ao invés da menina africana com as costelas de fora. Quero que tentemos seguir um pensamento mais aberto, menos tenso. Vamos acabar então partindo do princípio de que, para a nossa ilusória civilidade, violência é algo inegávelmente ruim. Se violência é algo ruim, que nos desperta repulsa, que nos impõe desconforto, temos um pré requisito já estabeleciodos.
Gaspar Noé, diretor e roteirista de “Irreversível”, filme com a maior cena de estupro em tempo corrido (algo em torno de oito minutos sem cortes) e mais algumas cenas fortes, que incluem ataques de extintores à cabeça de um homem e cenas de sado-masoquismo em uma boate gay, disse à crítica que seu filme não era violento, e que um exemplo de violência se via em “ilha das flores”, filme/documentário de  Jorge Furtado      , que retrata a realidade do consumo, acompanhando a vida de um tomate, desde sua plantação até acabar numa ilhota ao lado de Porto Alegre, com o mesmo nome que o filme. O que vemos em ambos são assuntos diferentes, de universos diferentes. Enquanto um fantasia com uma brutal realidade, que nos choca, ao ver os hábeis atores nos convencendo serem reais, o outro nos mostra o que existe de fato, sem churumelas. O que os torna um material violento é sua generosa dose de semelhança com o que sabemos poder existir. Não fico angustiado pensando nas crianças que morrem de fome diariamente, à não ser que eu veja uma foto ou reportagem sobre ela, e não fico pasmo com as brigas em estádio alguns dias depois que ela aconteceu. Isso me faz pensar que violência é algo tão natural do ser humano, que já nos acostumamos a tê-la conosco, já nos familiarizamos com sua ausência e presença esporádicas.

também se fuderam!

também se fuderam!

Mas então o que seria do mundo sem a violência? Haveriam guerras? … claro que sim. Essas são sempre travadas por motivos muito mais econômicos, fazendo com que a falta de violência apenas nos deixaria mais piedosos (afinal de contas, eles poderiam ter jogado a bomba atômica desde o primeiro dia que a tinham …). Simplesmente não podemos, nem consiguiríamos fugir da violência por que, como qualquer outro sentimento, ela faz parte das raízes do nosso DNA, ela já determinou no passado nossa sobrevivência, não podemos apenas descartá-la. Não lembro qual o nome do filósofo muito famoso que disse que se deus não existisse, precisaria ser criado (nietzch, dalai lama, jesus … enfim), mas acho que podemos usar esse exemplo com a palavra que estamos estudando. Não consigo imaginar um mundo sem violência, o que seria do Diário Gaúcho? O que seria do Datena? Ah sim! Isso nos leva a outro patamar do nosso assunto.
Uma das coisas que nunca entendi, e continuo sem entender, é o por que de violência vender TANTO. Como já disse anteriormente, em Roma, gênios da engenharia antiga projetaram alçapões, elevadores, ergueram centenas de quilos de pedra e alinharam uma-a-uma, apenas para que? Ver gente ser comida por leões depois de estribuchar alguns prisioneiros. Na época do Coliseu, a maior de todas as diversões era reunir toda a família naquela linda tarde de domingo, e assistir um inesquecível banho de sangue, que seria comentado por toda semana seguinte, aos detalhes mais assombrosos, narrando pedaços de corpos de martíres cristãos, rostos rasgados … enfim, violência vendia pra CARAMBA.  Hoje em dia até mesmo o jornalismo, que tinha como objetivo mostrar a verdade ao povo, distorceu tudo, e muitos programas são verdadeiros matadouros, mostrando sem pudores coisas como “avô de noventa anos estupra e queima viva a neta de três anos” … isso é de um absurdo tamanho sabe por que? Eles fazem isso apenas para ter audiência, para vender.  Tanto o jornalismo esqueceu de onde veio, que hoje em dia temos professores de marketing e publicidade dando aulas de jornalismo, e eu espero não precisar dizer o tamanho dos vãos que existem entre um assunto e outro.
Para fugir do nosso passado, os historiadores decidiram separar então algumas eras, e, claro, chegaram à conclusão que uma das maiores cidades do mundo antigo, onde já existia encanamento, filosofia e arte das mais avançadas, era algo como “mundo antigo”, um meio caminho entre os povos bárbaros e o povo europeu “civilizado”. O povo civilizado, que apareceu alguns séculos depois, na Europa, tinham a violência e o medo como base de sua vida devido a “Idade das Trevas”, quando 1/3 da população foi dizimada por doenças causadas por falta de higiene (morreram por que vivivam na merda, literalmente …), as pessoas se mantinham trancafiadas em seus casebres, e qualquer coisa que se aproximasse trazia a doença, fazendo com que muitas mortes e assassinatos tenham acontecido na época por esse motivo. Os familiares de pessoas que morriam por alguma doença eram perseguidos e muitas vezes mortos, por que o povo tinha o evidente medo da contaminação. Logo em seguida, na idade média, a violência era sinal de poder, atear fogo em casas com toda a familia dentro era algo até heróico. Quanto mais violência, mais força. Hoje, em nossa democracia vivida em grande parte do mundo, juntamente com os direitos humanos e mais algumas leis que protegem os culpados, violência é sinônimo de barbarie, são chamados de animais aqueles que usam a violência como forma de linguagem, enquato muitos lucram em cima disso (democracia = capitalismo, não esqueçam), enquanto, na verdade, eles, em uma grande maioria, fazem o que é de sua natureza. Mais uma vez o ser humano tenta se distanciar dos macacos … pobres primatas que somos.
Acho que o único homem realmente contra a violência, homem que inclusive conseguiu dar independência ao seu país sem travar uma guerra ou conflito sequer, foi Gandhi …. na verdade também tem o Profeta Gentileza que, diga-se de passagem, é muito mais engraçado e brasileiro que o indiano.

Anúncios
  1. fevereiro 23, 2009 às 05:14

    Cara,as tags sao geniaaais!

  2. NM
    fevereiro 25, 2009 às 16:17

    ”Se Deus não existisse seria necessário criá-lo”
    Voltaire disse isso, até cito em um texto aqui do blog (Deuses, para os interessadinhos)

    E o texto ficou ótimo (as tags principalmente aeheah), só discordo da parte Democracia = Capitalismo.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: