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Não se pode querer tudo

Eu cresci ouvindo essa maldita frase. Tinha essa merda martelada na minha cabeça quase todo dia da minha vida. E quase cheguei a acreditar. Era o ensinamento babaca por trás de cada falta de dinheiro, de vontade ou de vergonha na cara dos meus pais. Mas isso é o que menos importa, agora.

O que acontece é que enfiaram na cabeça de todo miserável do mundo não só que tentar sempre fazer o que se quer é errado, mas também que o sofrimento é bonito. Estupidez dupla, vinda lá da puta que pariu, quando dizer isso ainda fazia algum sentido – para os fodedores muito mais que para os fodidos, é claro.

A necessidade de se sofrer corre nas veias mais fundamentais do cristianismo. É o sangue podre que passa pela jugular decrépita desse povo cativo. Deve-se rezar de joelhos, pedir clemência, temer a deus (insisto em escrever com minúscula para fazer doerem as minúsculas e atrofiadas bolas de seus seguidores), pagar promessas e passar por infinitas formas de mortificação (passar horas ou até dias em jejum, se auto-flagelar, subir escadarias gigantes de joelhos ou qualquer babaquice dessas). Coisa que funciona muito bem na Idade Média, por exemplo. Serve pra manter os plebeus na lama e a tua mãe na cama, simplificando bastante a história.

Os hindus, budistas e outros povos trazem algo parecido quando falam de karma. Se você fode alguém hoje, é seu dever se foder amanhã. É o que um bando de velhos punheteiros chamam de “conjunto de deméritos acumulados”. Aparentemente, tem algum babaca escondido em algum lugar do universo que tem como única responsabilidade fazer com que todas as fodas terminem ocorrendo por igual. Ou, claro, alguma força misteriosa que faz com que todos os caralhos fodedores se voltem para o cu de seus donos.

…qualquer retardado sabe que o mundo não funciona assim. Se você se fode hoje, provavelmente vai se foder amanhã, e depois, e depois, e não é nenhum hino de nenhum Veda imbecil vai salvar a sua vida. O mundo é sujo, podre e injusto, e falar de Karma ou de Dharma (méritos adquiridos) só soa bonito quando você não está na posição do fodido (ou pelo menos ainda não percebeu que está).

Vejam bem. Muita gente, como São João da Cruz, falou merda, como podemos ver em sua Subida ao Monte Carmelo:

“Procure sempre inclinar-se:
não ao mais fácil, mas ao mais difícil;
não ao mais saboroso, mas ao mais desabrido;
não ao mais gostoso, mas antes ao que dá menos gosto;
não ao que é descanso, mas ao trabalhoso;
não ao que é consolo, se não antes ao desconsolo;
não ao mais, mas sim ao menos;
não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezível;
não ao que é querer algo, mas a não querer nada;
não andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior, e desejar entrar em toda desnudez e vazio e pobreza por Cristo
de tudo quanto há no mundo”

Não consigo entender como coisas como essa soam bonitas pra muita gente. O cara diz que você tem que fazer o que você não gosta porque… sim. Se divertir é pecaminoso, feio e cruel, e se foder é lindo bonitinho fofinho maravilhoso. Vão tomar na porra do cu! Ignorância tem um limite, caralho!

Você pode querer tudo. E pode passar sua vida inteira tentando conseguir tudo o que quer. É claro que nem sempre as coisas vão dar certo, mas perceba que existe um abismo gigantesco entre não conseguir tudo e fazer o que não se quer à toa.

Milhões de toneladas de escritos de tudo que é tipo de “sábio” poderiam ser jogado no lixo se alguém prestasse atenção na simplicidade de Aleister Crowley ao dizer que “faça o que quiser é a única lei”. Por que se bater com chicote ajoelhado no milho enquanto você pode simplesmente aproveitar a vida?

O culto ao sofrimento me obrigaria a falar de miasma, de castidade, de romantismo, de concurso público e de mais uma caralhada de coisa. Por hoje, basta lembrar a hipocrisia da maioria das religiões do mundo (pelo menos de todas as que cultuam a dor): pra um cristão, ter uma noite de sexo BDSM é um passaporte direto pro inferno, mas sentir as chagas de cristo através de estigmas é uma honra incalculável.

Encolher cabeças é uma heresia sem fim, mas condenar os descrentes em seu deus ao tormento eterno nos poços do inferno é lindo.

Se deus existisse, eu encolheria sua cabeça e usaria no pescoço, como bom Jívaro que sou.

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