No que crêem os que não crêem? Absolutamente, na sua profunda descrença. Descrer é um ato involuntário. Não se controla uma crença ou mesmo uma descrença.
Por exemplo, se ouvimos uma palavra, ou acreditamos nela ou não. Independente dos motivos.
“- Quem venceu a luta foi o mexicano Palomino Waldéz.”
Você acredita na frase acima ? Sim ou não, nossas crenças não ajudaram a responder se a frase é ou não verdadeira. Mas independente disso, antes de perguntarmos o horário da luta, o local e os demais detalhes do evento, e que possamos confirmar pela imprensa esportiva tal evento, ou ainda pela prefeitura ou governo do país realizador, ou pelas declarações dos patrocinadores. Bem, podemos isto é, investigar as procedências das afirmativas, pra saber se o que acreditamos ou descremos é alheio a realidade.
De tal modo, que o que se deixa claro, é que a crença vem antes de qualquer raciocínio e é algo tão intuitivo quando natural e até mesmo arbitrário.
Sempre sua crença se manifestará quando ouvir uma determinada sentença que se declare verdadeira.
Se alguém diz que o fogo queima, podemos acreditar sem nos queimar ou podemos nos queimar para crer, mas não podemos não crer que o fogo não queime por não ter sido queimado antes, ou mesmo se não soubéssemos de nenhum caso de queima.
O que for dito poderá ser acreditado ou não. Se eu digo, eu sou a Verdade e a Vida Eterna,você pode acreditar ou não nisso.
Pois muitos crêem, na imortalidade da alma, e inclusive muitos dos grandes pensadores da história, como Dostoievski, Platão, Descartes ou Paulo Coelho.
O seu raciocínio não é uniforme, mas deforme, pois não se trata em si de um raciocínio mas de uma crença em uma esperança.
Bem, crêem que a consciência de si, de maneira geral que caiba no discurso de todos os citados acima, sobre si, é a prova de que existe acima disso uma consciência maior e um propósito pra tal existência. E nisso, crêem que sua consciência é eterna e imortal. Isso é, se o corpo falecer, a memória, o raciocínio, a linguagem, os sentimentos, os sentidos, a criatividade, o juízo, a cognição, a cultura, e outras demais faculdades mentais, continuam intactas flutuando pelo espaço além do universo material que limita o conhecimento humano, segundo alegam tais gênios.
Eu não vou dizer que acredito nisso, e não acredito sem nem investigar.
Mas assim como no exemplo da luta de boxe, podemos investigar quais crenças vão conseguir se fundamentar dentro dos limites do raciocínio ordenado.
Pois então, resumindo, partem de que a imortalidade da alma é um fato, pelo seguinte raciocínio.
1 Eu existo e tenho consciência da minha existência, e do mundo no qual existo.
2 Eu identifico que outras consciências tais quais como a minha coexistam no mesmo mundo comum. Outros indivíduos e outras almas.
3 A maneira como me comporto em relação ao mundo e as outras almas é o que julga o valor da minha consciência espiritual.
4 Para tanto, se existem consciências que estão conscientes de si, é porque existe uma consciência maior que todas que organiza isso.
5 Então supuseram que poderiam existir uma ou mais consciências, isso é, um ou mais deuses criadores, e chegaram a conclusão de que no fim sempre um seria o maior e o mais poderoso e para tanto necessitaria ser um Deus de consciência com as seguintes características; Benevolente, onisciente, onipotente, eterno, imortal, transcendente e justo.
6 Com base nesses argumentos, então muitos começam a variar suas crenças nos pequenos detalhes de opções de comportamento moral. Mas a base de Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, vão estar nessa imortalidade da alma, e nos demais conceitos de consciência, alma, espírito…
7 A principal base para tais conhecimentos não são as vias, científicas, filosóficas ou políticas, e sim a REVELAÇÃO DIVINA. Na qual Deus revela as verdades do mundo através de profetas, milagres, anjos, de artistas e da própria beleza da natureza.
8 De tal forma, nos foi revelado que tais condições assim funcionam, mas nem tudo foi revelado pois algumas coisas estão acima da capacidade de entendimento do homem e da humanidade.
E basicamente esse é o raciocínio perfeito, que tais gênios da humanidade sustentavam. É óbvio que mais do que crer em deus, as pessoas acreditam na imortalidade da própria alma, e a continuidade de uma existência posterior ao falecimento do corpo. Não que acreditem nisso por seguirem o mesmo resumo de raciocínio que tentei expor acima. E sim por doutrinação cultural, e não há nada de errado em crer nisso, nem tenho eu algo contra aos que crêem ou de que se creia no que quer que seja. Acho na verdade muito bonito algumas manifestações verdadeiras de fé.
Pois sim, uma inteligência ordenadora é quem foi responsável por toda essa desordem que é a realidade que vivemos. Chamem essa inteligência de Deus, de Demiurgo, do que for.
Então, a questão, vai se resumir a uma única coisa, o universo tem vida inteligente? Os movimentos são coordenados por um cérebro maior e vivo ? Ou existe a possibilidade deísta, de o universo realmente ser desprovido de pensamento, as estrelas explodirem pela galáxia de maneira burra e não pensada, de tal forma que tudo foi programado antecipadamente com uma margem de erro para o livre arbítrio.
São muitas possibilidades, mas no fundo, vamos chegar a uma simples frase, que podemos nela crer ou descrer.
O universo é inteligente e está vendo tudo que está acontecendo e irá lhe julgar depois pelo seu comportamento enquanto vivo e escolher seu destino de pena ou recompensa em função disso.
Muitos nisso crêem, e eu acho realmente uma hipótese absurda de se crer, e não creio por antipatia, ou qualquer outro motivo, eu não creio simplesmente por sinceridade, porque seria muito fácil dizer que eu concordo com isso.
Não se trata então de maneira alguma de que eu por não crer na frase que tomo como absurda, que isso deva ser uma lei geral pra qualquer pessoa. Não acho alguém pior, ou melhor, por crer ou descrer em nada.
Agora, vamos desafiar tal raciocínio o colocando em linhas limpas.
Primeiro, o universo não tem consciência de si mesmo, porque o universo não é vivo. O universo não é vivo, porque ele não possui metabolismo. É um absurdo supor consciência ao universo, mas não há um passarinho.
Os seres vivos, sobretudo os que possuem cérebro, conseguem ter uma espécie de consciência, ainda sim muito desconhecida do ser humano. Acho que a consciência dos animais é algo que ainda merece muito estudo, e formas de comunicação objetivas entre humanos e outros seres vivos.
Assim, realmente temos a consciência, e com ela o juízo de valores, mas a origem não é por o universo ter determinado tal verdade no momento em que foi criado pela inteligência suprema que o fez. A consciência vem como necessidade de sobrevivência do ser vivo, e de permanência harmoniosa com os de sua espécie.
Os seres que possuem nível mais avançado de consciência, são seres sociais. O que nos faz termos valores éticos, não são um universo bondoso fazedor de milagres, mas sim milhares de anos de evolução sociológica, aliada as necessidades fisiológicas individuais e reprodutivas.
A ética, é meio que o lema cristão de não fazer os outros o que não gostasse que não fizessem a si. Você coça as minhas costas que eu coço as suas e você não enfia o dedo no meu rabo que eu não enfio minha mão no seu… Deve ser o código penal dos gorilas do Congo.
Pois sim, como a filosofia conseguiu se desvincular de mistérios sobrenaturais e os explicar com fatos naturais, tal como a necessidade moral que deixa de ser divina e se transforma em necessidade natural da espécie.
O amor não é divino, mas é mamífero. E Deus, pelos fósseis até então encontrados definitivamente não é mamífero. Nem material ele é, então dessa forma, não é se ele existe ou não, mas se ele faz alguma diferença ou não na realidade.
Porque mesmo ele existindo, que seja, não interferindo nos detalhes da natureza, isso é, não fazendo lá seus milagretes pelas esquinas da natureza… Vai que uma foca bondosa esteja com fome e Jesus multiplique os peixes num inverno de morte. Acho difícil tal mérito à natureza, já que eu não consigo entender o lobo com pena de um cordeiro. O máximo que pode acontecer é falta de apetite, que acontece com todos.
Quanto ao fato, que isola o discurso no cristianismo, isso é na existência de Jesus, me basta dizer que pra mim isso não passa de um mito como qualquer outro mito popular da antiguidade, que virou religião moderna. Simplesmente isso, nada ali é fato e os textos não são de quem dizem que são, é tudo uma literatura, muito bela por sinal e valiosa em seus ensinamentos, mas que não corresponde em nada com a visão que meu ceticismo traça da realidade.
Portanto a consciência não tem origem sobrenatural ou divina e sim natural. A moral e a ética igualmente são necessidades naturais e sociais. Trabalho e cultura diferenciam o ser humano em sua linguagem cognitiva.
Isso é o que acredito, basicamente. Que a consciência não procede de mágica, mas sim da natureza, tal qual viemos da reprodução sexual e não das cegonhas.
O espírito por outro lado, esse sim eu vejo como algo imortal e que fica. Como um bem imaterial pela metade, já que sua outra metade será justamente o registro do espírito em matéria. Um livro, um disco, um quadro, um retrato, uma ação, uma estátua… ali repousam os espíritos. E muitos espíritos se tornam maiores depois dos séculos de suas mortes. Se Bach tocava em poucos privilegiados lugares da Europa, hoje é vivido em todo youtube e seu espírito vaga livre pela música de todos os tempos.
O espírito desta forma, que é um resultado da ação da alma durante a vida, esse sim é eterno, imaterial pela metade, mesmo que condenado ao esquecimento.
Ninguém é obrigado ou sequer convidado a acreditar no que eu acredito. É simplesmente o que acredito, e isso não é uma ofensa a você que crê que o mundo foi criado na costa de uma tartaruga gigante.
Espírito então é algo que procede do materialismo, mas não por isso é material, mas é pela metade, já que o espírito de dom Quixote está por aqui, embora dom Quixote nunca tenha tido uma alma mortal. Uma alma literária é uma alma imortal, e se quisermos a imortalidade de nossa alma é bom que viremos um personagem que fique.
O demiurgo, então é o nada de onde viemos e para onde iremos, e ele não é inteligente, mas sim o silencio total.
O que sentíamos antes de nascer, provavelmente é o que sentiremos depois de nossa mortes. Já que não tínhamos cérebro nem corpo, nem sentidos, e assim voltaremos a não tê-los e voltaremos a não ser mais nós e sim ser o demiurgo como todos os outros.
Ah sim, ia faltar então o motivo. Mas pra que tudo isso, pra que as inteligências, as vidas, os sofrimentos, e as lembranças… oras, isso ai para que serve ?
Eu digo que se isso servisse pra alguma coisa perderia o verdadeiro sentido.
O sentido, é justamente o de termos a capacidade de procurarmos sentido as coisas. É uma necessidade nossa dar sentido a nossa vida, então não foi o universo que determinou um destino para existência de nossa alma e cumprimos nossa vida tal como uma penitencia como uma graduação para o merecimento do gozo no paraíso.
Podemos escolher o sentido de nossas vidas, planejar metas, traçar objetivos, determinar prazos. O que queremos fazer de nossas vidas? Temos a liberdade de escolher. Mesmo que eu possa escolher entregar nossas vidas a amar a um ser imaginário mais do que qualquer coisa como nosso primeiro mandamento. Sendo que falta tanto amor entre os homens.
Desta forma, admito aqui uma crença, que é basicamente na descrença que não é racional, mas imediata. Nem por isso não posso raciocinar por cima dela e da idéia geral sobre a qual ela se revolta.
Fica aqui atendido o pedido do nobre amigo Gafanhoto.
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