Liberdade, Parte 02 de 03
Sartre diz que “todo ser humano está condenado a ser livre” e que qualquer subjeção à essa afirmação são apenas desculpas dadas por pessoas que temem a deus ou algum outro tipo de julgamento imposto à elas por algum grupo de pessoas ou cultura. O grande X da questão é: qual a linha que difere uma imposição de uma ordem? Felizmente para nós, essa linha está bem sublinhada. Imposição é quando você diz a alguém: olha fulano, tu vai tomar no cú se tu fizer isso, pensa um pouco a respeito e depois tu faz o que tu acha certo. E lei é quando você diz a alguém: olha aqui meu querido, ou tu faz o que eu to mandando ou tu só tem a te fuder, por que eu sou a lei por essas bandas e eu vou te caçar e te fazer apodrecer num lugar que nem nos teus piores pesadelos tu ja pensou em estar.
Na verdade, para ser bem sincero com vocês, eu acho que eu nem devia falar sobre Sartre, por que ele parte de um príncipio totalmente oposto ao meu, e fica muito difícil pensar em alguma outra coisa do que: mas sério, o que esse cara tinha na cabeça quando pensou nisso? Mas vamos continuando.
Não sei se Sartre pensou muito a respeito da divisão hierárquica da sociedade. Na verdade eu nem ao menos sei se, na sua época, isso existia da mesma maneira como existe nos dias de hoje. O que me leva a uma pequena observação no texto antes de continuarmos: muitas vezes, as pessoas se debulham lendo obras de mestres da filosofia e da sociologia, sem se lembrarem que são todas obras que falavam e faziam parte de uma cultura totalmente diferente da nossa, ficando difícil aceitá-las como pura verdade em qualquer outro lugar ou época que não seja da vivida pelo autor. Mas voltando ao assunto anterior … não sei se na época em que ele vivia, ou a região em que vivia, existiam escravos (a resposta certamente é sim) ou pessoas que trabalhavam por pouco dinheiro, ou morimbundos e miseráveis pelas ruas, mas pensar que essas pessoas dividem a mesma liberdade que seus patrões é um pouco estranha não? Não tiro a lógica do pensamento dele, acredito que todos nós decidimos fazer o que bem entendermos, mas livre, a palavra liberdade não nos remete a uma pessoa livre de algemas ? Que faz o que bem entende sem precisar temer alguma outra coisa além da conseqüência do SEU próprio ato? Uma pessoa livre não é aquela sem donos? Que responde por si só? Que toma todas suas decisões? Ao meu ver, liberdade plena e verdadeira é essa, e acho difícil existir algo que possamos chamar de liberdade que seja muito diferente dessa primeira impressão.
Mas por que um homem tido como um dos grandes filósofos da história teria dito tal bobagem? Como eu ja disse, não acho de todo mal sua suposição. Concordo quando ele diz que o ser humano tem o direito de optar por um dos diversos caminhos a sua disposição, mas esse é apenas o princípio da liberdade, é apenas o esboço de algo muito mais complexo. Como eu ja disse, você poderia muito bem ficar na ponta mais fraca da corda, você pode escolher por perder, mas quem quer isso? Quando se entra em um jogo, é para ganhar. Quando alguém lhe diz : passa a carteira, perdeu playboy perdeu! Você tem a opção de mostrar o dedo do meio e cuspir na cara dele, ou colocar o dedo no cano da arma esperando que ela vá ficar parecida com uma banana descascada, mas por que você não faz isso. Evidentemente é por que tu não é LOUCO DE PEDRA. Mas além disso, é por que você não esta recebendo um caminho bifurcado, estão lhe dizendo que, ou você dá o que tem, ou tu não vai usar mais o que tu tem por que só teu espírito vai para o céu, então o que você faz? Entrega a mochila, a carteira, a dignidade, os documentos que terão de ser todos feitos novamente (tente não lembrar disso na hora de um assalto, ou você se sentira motivado a ver a arma em forma de banana descascada). Resumindo, são poucas, muito poucas, as pessoas que ignoram o medo de suas decisões, que não tem medo de morrer por sua honra ou liberdade e, para minha infelicidade, são essas pessoas que tomam veneno para não se desculparem pelo que disseram, são essas pessoas que constróem, com seu sacrifício, uma sociedade mais justa, que erguém os alicérces de uma nova época, que revolucionam, que servem de exemplos e que estão nos livros de história. Essas pessoas são realmente livres.
O que resta a nós, pessoas que temem o último suspiro? A falta de nossa liberdade nos torna pessoas medrosas? É a coragem que ergue a bandeira da liberdade? Uma pessoa livre é, necessariamente, uma pessoa desprovida de medo? Sinceramente, acho que tomar certas decisoes, principalmente aquelas que põe em risco uma vida inteira, requer bolas muito grandes, não consigo entender ao certo se uma pessoa livre já pode ser considerada corajosa, mas eu digo categóricamente: não sou medroso, mas jamais me sacrificaria por motivo qualquer, afinal de conta, sempre haverão os que morreram no teu lugar, e isso faz de mim uma pessoa sem coragem? Não sei, me respondam vocês.
Na minha opinião, o ser humano é cada vez um ser menos livre. Nos agarramos a valores rabiscados e reformulados, remendados. Nos prendemos ao dinheiro como o único capaz de salvar à todos (e o pior é que é verdade), nos livramos da nossa natureza realmente livre, nos desprendemos cada vez mais das pessoas, para nos afetuarmos por máquinas cada vez mais sentimentais e frias. Não somos livres em nenhum aspecto. Escolhemos nossas decições com base no que os outros vão pensar, em o que vai me acontecer diante de tal situação. Tememos a morte em último lugar, antes dela, disparados, ainda se encontram o benefício financeiro e as leis da civilização. Não somos livres nem nos nossos pensamentos, bombardeados a todo custo por uma geração de informação e propaganda que nos usa como verdadeiras marionetes que fabricam dinheiro e gastam com o máximo de coisas desnecessárias que puder. Estamos presos e enraizados com a idéia de que, para sermos alguém, a liberdade de escolha, a liberdade de opinião, é nada mais do que o caminho errado a se seguir. Pensar e agir diferente é errado. Nas escolas, nos querem ensinar a viver em sociedade? Vocês querem saber o que eles formam? Pessoas com asas cortadas, que estipulam metas, que pensam ser uma pessoa rica andando de terno, que olham para baixo com desdén, que passam por cima de tudo sem pensar nas consequências, palavra essa tão básica para toda a ciência e filosofia, palavra que remete ao ditado: tudo que vai, volta. Tudo que entra, sai. Tudo que sobe, desce.

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